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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Diga porra qu'alivia!

Sempre desconfiei de quem nunca diz palavrões.

Não que seja apologista que se ande a distribui-los a torto e a direito, mas existem ocasiões em que são quase mesmo imprescindíveis, como expressão de raiva, de cólera, de surpresa, de desespero, até de alegria.

Conheço gente tão contida que em dezenas de anos nunca lhes ouvi uma palavra fora do sítio. Nem um "Com a breca!". Pode ser um grande disparate mas acredito que são menos felizes por isso. Não é plo mandar alguém à merda que se é mais ou menos feliz mas pelo soltar das emoções, pelo chorar de tristeza na perda de quem se ama, pelo gargalhar dum qualquer disparate, pelo barafustar quando se foi mal atendido.

Este assunto lembra-me sempre uma história passada num almoço de Natal. O Rosendo é o único ascendente masculino que me resta. É meu tio materno, bem disposto e excelente cozinheiro. Surpreende-nos em cada Natal com um novo petisco no centro da mesa e faz questão que seja eu, a sua única sobrinha, a servir a famelga toda. Há uns natais atrás, estávamos nós a iniciar este preparo, já com os ilustres comensais salivando pela surpresa quando, ao detapar o imenso tabuleiro, soltei um ai de dôr. Tinha-me queimado. O Rosendo, acabadinho de sentar ao lado do seu mais que querido cunhado, piscou-me o olho e disse:

- Diga porra filha, diga porra que alivia!

Eu disse. Acho que aliviou. Foi gargalhada geral.

 
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