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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Senhor Ribeiro da Biblioteca

Dias, semanas, meses a fio esperei o Senhor Ribeiro a partir das cinco e meio, sentada nas escadas de madeira do prédio que, naquele tempo era o do turismo, da biblioteca e, acho que também de qualquer coisa de saúde pública, tipo agente sanitário, ali mesmo em frente às laranjeiras do Abrigo e a seguir à Palinova. Todos os dias utéis requisitava os três livros possiveis e lia-os de rajada, como se cada um fosse o último, de olho arregalado e caminho directo aos sonhos.

Com o passar do tempo as visitas deixaram de ser diárias porque o deleite da leitura assim o obrigava mas, dizia o Sr Ribeiro, continuava a ser a sua melhor freguesa e quem quase como ele conhecia de cor e salteado cada uma das prateleiras. Acho ainda posso pegar num lápis e num papel e arquitectar cada assunto e muitos autores, estante a estante, daquele primeiro andar de parapeitos floridos.

E o bom que era contar e ouvir do Senhor Ribeiro um mundo inteiro de fantasia roubado às muitas páginas folheadas ou acabado de sair da nossa imaginação, enquanto eu copiava parágrafos mais especiais e ele tratava da saúde a lombadas defeitas ou ajudava na consulta de alguma obra.

Na entrada, ao lado da porta verde, havia uma placa dourada onde estava escrito: Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Fixa nº 6, de segunda a sexta, das 18h às 20h. Num domingo de 1974 , ao lusco fusco, fomos lá, à sucapa e colámos um cartaz a dizer "Biblioteca do Senhor Ribeiro" numa atitude PREC'iana de entregar terra a quem a trabalha.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Paulinho Pargana

Crescemos quase juntos, ruas chegadinhas, a escola velha, o cinema na rua de lá, o Abrigo mais abaixo e a Meia-praia à distância dumas poucas de remadelas na barcaça do Armindo.

Brigamos e fizemos as pazes vezes sem conta, ganhámos e perdemos contratos Páscoa sim Páscoa não, jogámos berlindes e ao mata, às estátuas, ao pisa e à verdade e consequência. Aprendi a tocar na guitarra que os pais lhe trouxeram de Espanha e começou a gostar de ler com a "Crónica dos bons malandros" que recebi de presente. Trocámos almanaques, cromos e as confidências dos primeiros amores, ouvimos os discos e as cassettes todas da moda e até os pirosos, chorámos desilusões no ombro um do outro, trouxe-lhe areia, água do mar e amigos quando a hepatite o prendeu em casa e ele contou-me a vida da rua quando a febre reumática me arrastou pra cama.

Foi com ele que os meus pais me deixaram sair à noite as primeiras vezes, juntos fomos aos festivais da cerveja de Silves e aos concertos do Parque das Freiras, foi o DJ que pôs a malta a dançar no velho Charlie Chilly da Aquazul e nas matinés do Ping-Pong, sempre me lembrando quando chegava a hora de recolher.

Vibrou quando me nasceu o primeiro filho. O Chiado ardia na televisão da sala dos meus pais quando bateu na janela e entrou casa adentro, naquele seu jeito meio desajeitado. Tirou o Lopo do berço e aconchegou-o ao peito, falando-lhe baixinho, naquele voz de falsete que lhe era tão característica.

Era Verão. A minha mãe passou a manhã a entrar e a sair. O meu pai estava triste e mudo. O almoço ficou na mesa. Até no café da esquina reinava o silêncio. Estava calor. Muito calor. Nunca lembrei quem trouxe a má nova. Parecia um eco. O Paulo morreu num acidente, ...dente, ...dente...

Enraiveci de dôr. Nunca mais consegui entrar no Vitaminas. Nem no Zapata. Demorei anos até voltar a ouvir Carlos Santana, a jogar badmington e a passar no lado dele da rua, onde há meia dúzia de dias nos tinhamos encontrado entre abraços e gargalhadas.

Já não fujo dos pais do Paulo nem finjo que não tenho saudades, faço é sempre de conta que foi de viagem e um dia destes ainda aparece por aí.

 
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