quarta-feira, 24 de junho de 2009

do fundo do coração

Escrever cartas a quem se ama é sempre um bom incentivo para aprender a juntar letras e formar palavras. Tem sido assim, todas as manhãs cedo, enchendo folhas de papel pautado enquanto o parque acorda e os telefones ainda não tocam. Cartas de saudade, de desabafo, de reeinvindicação, de amor sonhado. Umas vezes de verdade e outras assim a modos que de faz de conta mas, sabemos ambas, é nessas que o coração solta a mordaça, fala solto e nos deixa a cabeça à roda, cheia de dúvidas e de vontade de traçar novos caminhos.

Se calhar devia ensiná-las a escrever só cartas de mentira, daquelas que começam por "Queridas primas, Desejo que esta carta as vá encontrar de boa saúde que eu estou bem graças a Deus", que terminam com "muitos beijos e abraços desta prima que muito vos estima" e que pelo meio falam do sucesso do emprego dos filhos, de como os netos vão bem na escola, da televisão nova que acabaram de comprar e do bom que é viver na Europa.

Mas essas são as cartas que depois da lição são deitadas no marco do correio. As outras, as que nunca são enviadas, falam das fraquezas, da pobreza, dos maridos ausentes, da falta de amor, da luta de cada dia, das patroas, do frio do Inverno, da demora dos documentos, da sede de afago,daquele aperto no peito que tira vontade de tudo e do grito rouco que vem lá do fundo e dá aquela força de continuar a acreditar em amanhãs melhores.

Esta noite, quando todos dormirem, vou escrever-me uma carta.

ssss


quinta-feira, 18 de junho de 2009

primeira vez

Por mais vezes que se fale da primeira vez, jamais alguma primeira vez perde o sabor da novidade e o arrepiozinho do desconhecido.

É o primeiro dia de escola com tantos novos amigos, a professora, boa ou má que nunca vamos esquecer e aqueles recantos de recreio que se vão tornar a nossa casa;

O primeiro amor, que brilha mais que a estrela mais brilhante que agora vislumbro pela janela escancarada ;

A perda do carrinho mais veloz que se acidentou escadas abaixo, a mancha de tinta verde no vestido preferido, o primeiro dente de leite a abanar, o nosso nome escrito em letra de mão e sem ajuda no caderno diário, as manhãs as tardes e as noites que passam a ser tantas horas e tantos minutos, lidos a custo num mostrador de relógio, a bicicleta que finalmente deixou de tombar e aquele miúdo parvo que não nos sai da ideia.

A descoberta do próprio corpo, o prazer e a dor da paixão, a primeira saída à noite com os amigos, de cigarro e cerveja em punho, ainda com horas de voltar mas com chave de casa no bolso, o calor do desejo e a pressa de o calar.

Ir de férias sem escolta, tirar a carta, subir saias e descer decotes à medida da moda e dos desejos de cada dia, ganhar a vida, descer a rua de saltos altos, despedir o acne, votar, atravessar o Tejo de cacilheiro, negociar o aumento de salário, jantar à luz de velas, dar sangue, dormir ao luar, separar o lixo, fazer greve, usar óculos, adormecer no comboio, ir à Meca sonhada ou simplesmente pintar as unhas das mãos.

terça-feira, 16 de junho de 2009

ser mãe

há exactamente vinte e um anos, por esta hora, desciamos a avenida da liberdade com destino ao cais do sodré. no vagar do caminho subimos no elevador de santa justa e deixamo-nos ir atrás dos sonhos. no passadiço para o carmo demoramo-nos em longos beijos e abraços apertados. lá em baixo, na rua garrett, encostado a umas floreiras que lá havia, um jovem flautista tocava uma melodia que ainda hoje guardo, acho que no coração. no céu brilhava uma lua quase cheia e a brisa soprava de mansinho, levantando o vestido leve e florido que me cobria. apanhámos o último comboio e regressámos num dos primeiros. de mala na mão, aperto no peito e uma espécie de receio do desconhecido desejado que estava mesmo já a bater à porta. lutámos pela liberdade entre gritos e penumbras. num repente de dor aguda fez-se à vida. senti-o quente e húmido sobre o meu peito. pulsando vida.
a nossa vida.
mmm

segunda-feira, 1 de junho de 2009

gente pequena

Dizia o poeta, que acho nem era muito chegado à gaiatada, que o melhor do mundo são as crianças. É. E bom mesmo é aquele bocadinho de gente pequena que vamos mantendo de saúde mesmo quando já somos gente grande. Aquele lado do disparate, dalguma inocência, de ter um gozo do caraças ao chupar um gelado de gelo ou ao inventar aquelas estórias fantásticas que viram vida de verdade.

Cresci filha única e fui ganhando irmãos com o correr dos anos. Coisas de coração. Além dos meus três rapazes há sempre um corropio de miúdos lá por casa e sobrelotando a carrinha, falando uns mais alto do que os outros num frenesim de quem tanto tem para contar que nem quer saber se é ou não ouvido.

Tropeçam em berlindes e em palavras, apertam-se em
abraços e em lutas, zangam-se, fazem cara feia e as pazes, dão mais abraços e prometem paz para o sempre que é já dali a bocado .

Vamos de barco até Almada para ver o Cristo-Rei bater as palmas, mas sempre chegamos depois da hora. Pelo caminho aproveitamos para contar alegrias, medos e truques de escrever cartas de amor em código, com sumo de limão e deitá-las na Praia de Santo Amaro ao cair da noite da próxima lua cheia.

Falamos de coisas sérias e obrigações. Pedimos humildade, educação, trabalho na escola e no pavilhão, respeito pelo próximo, cumprimento de regras e mais aquelas cenas todas que até nós sabemos são peso demais para quem ainda acredita que o mundo é lindo, ridondo e de todas as cores.

Ontem, no palco grande das Festas do Concelho de Oeiras, os miúdos do Centro Comunitário do Alto da Loba encheram-nos o coração. Crianças de diferentes nacionalidades apresentaram danças tradicionais dos vários países de origem. Africanos bailando e falando russo, brasileiros dançando o luso regadinho, moldavos rebolando num funaná a preceito e todos juntos, sambando, cantando, de mãos dadas pela amizade imensa que os une.

Às vezes, no fim do dia, não nos sobra quase nada mas acho já não seríamos capazes de viver longe desta algazarra, né mana? Eu chamo-lhe tempero. Tu chamas terapia. Há quem chame loucura ...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

de volta ...




quando os dias crescem e fica mais quentinho, parece até o futuro é mais grande e quase tudo tem solução.

a cantoria da passarada e o resmalhar dos eucaliptos. o cheiro das figueiras. as risadas e as lengalengas dos miúdos no regresso a casa. os mais velhos recolhidos nas sombras do parque jogando uril e contando parte. as paixões cegando a razão. a tijoleira aquecendo os pés nus e o entardecer sublime de quem não quer ir já para o amanhã.



mm

terça-feira, 12 de maio de 2009

Deixa-te ir ...

Sabes a ladeira dos Barronhos? Aquela cheia de armazéns e portões cinzentos que parece quase nunca abrem? Sobes, sobes, sobes, e lá no cimo de tudo, depois dos campos de milho verde, onde já nem os repolhos crescem, tens assim tipo uma fábrica de cenas de inventar. Podes até pensar que é alcool ou ganza ou até que pirei de vez ou fiquei com cabeça tonta de altitude, mas não é nada disso. Sentas-te fixe, assim meio deitado, fechas os olhos e começas a olhar pra dentro, mansinho como quem nem quer ver. Aí a cena começa. Ventania, passarada, nuvens desvairadas de encontro ao mar, o resmalhar dos arbustos e aquele cheiro bom de oregãos e rosmaninho. Ao longe ouves os jogos de bola, as cantilenas das miúdas na rua do coreto, o ralhar das mães e a reza do terço que começa. Adivinhas as carícias e os beijos escondidos, as promessas por cumprir e as solidões disfarçadas.

Deixa-te ir.
Nos sonhos, parece até o amor é de verdade.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

D. Revolução



Eram oito e pouco da manhã. O portão de ferro da entrada da escola não estava escancarado. A criançada não brincava no recreio da frente. Nem no de trás. A menina Clotilde avisava assim quase sorrateiramente todos os que iam chegando:

"- Vai pra casa piqueno que a D. Revolução chegou esta noite".

Também voltei. De caminho, fui espreitando os burros do vizinho Seromenho, a mercearia do Joaquim Guilherme, a venda da Bia e metendo conversa com o Manel dos Pincels que, empoleirado na sua velha escada de madeira caiava as varandinhas da Porta dos Quartos.

- Atão menina, o Senhor Professor caiu da cadeira ou foi a senhora dele que teve menino?

- Diz que a D. Revolução tá na escola ...
fui dizendo, enquanto amarinhava escadas acima, abrindo rasgão no engomado bibe branco e pintalgando as tranças já tão meio à banda.

A minha avó espreitou do postigo:

- E quem é que vem a ser essa da D. Revolução?
- Eu cá acho que deve ser ...

E nem fui a tempo de dizer "inspectora". A minha avó já bradava lá de cima que a magana que tinha acabado com bibe tão bem costurado bem se podia ir preparando para escrever vinte cinco linhas de "A bata da escola é branca de neve, sem nódoas nem buracos".

Depois, no meio do alvoroço do pessoal, das cantorias, dos soldados que sairam do quartel sem ser a marchar, do coro de "O povo unido jamais será vencido" a minha avó esqueceu-se do castigo e tratou de mandar chamar o Manel dos Pincels para vazar, limpar e caiar a cisterna, não fosse o diabo tecê-las, o tempo voltar pra trás e a família precisar dum lugar seguro para se esconder não sabia de quem.

Na folha de vinte e cinco linhas só escrevi:

Lagos, 25 de Abril de 1974

quinta-feira, 23 de abril de 2009

afinal, quem ?

Chamaram-lhe Maria de Fátima e cresceu Fátinha. Atrás do sonho de vida melhor aterrou em Lisboa no princípio dos anos 90. Descobriu pouco depois que afinal não tinha vindo para o paraíso. A patroa não pagava nem fazia contrato, estava muito frio e a escola não aceitava estrangeiros não regularizados.

Penou nas filas do SEF e nunca chegou à sua vez. Fez o que continuam a fazer muitos imigrantes: inscreveu-se numa empresa de serviços com documentos mais ou menos emprestados por um conhecido, que dizia serem duma irmã que já tinha voltado para a terra. Apresentou-se como Georgina para trabalhar num hotel na linha do Estoril, poucos dias depois.

Parece a vida já lhe sorria. Gostavam dela no emprego, recebia gorjetas dos clientes, morava numa casa simpática com o companheiro e os dois filhos nascidos entretanto. Um dia a chefe chamou-a à recepção, alguém procurava por ela. Eram da polícia e vinham buscá-la. Por mais que explicasse que a Georgina não era ela, que os documentos que estavam na mala eram só emprestados, foi na mesma julgada e condenada a 4 anos por tráfico de droga.

Na cadeia foi conquistando a confiança de todos e com a ajuda de uma advogada oficiosa conseguiu ser ilibada de tráfico e condenada por utilização de documentos falsos. Saiu aliviada mas sabedora de todos os truques de como enganar o parceiro ou fazer seu o objecto alheio. Desesperada e sem emprego, envolveu-se e ao companheiro em burlas e gamanço e acabou por ser apanhada no SEF quando foi levantar documentos. O companheiro foi preso e ela expulsa do país.

Na terra só passou os dias necessários para visitar a família e arranjar passagem. Menos de uma semana depois aterrava em Lisboa como Edite. Apanhou os filhos na casa da amiga onde os tinha deixado, disse à patroa que tinha estado internada no hospital, alisou a cama que continuava desfeita, marcou a data de casamento para o mês seguinte e voltou à lida.

Actualmente marido e mulher trabalham, as crianças frequentam a escola oficial e aguardam que os cinco anos do período de expulsão chegue ao fim. Nesse dia, se tudo correr bem, talvez o Luís e o Zézinho deixem de ser filhos da Georgina, o pai deles se divorcie da Edite para casar com a Maria de Fátima e finalmente sejam uma família de verdade. E feliz para sempre, também.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

elas

Ao longo do dia de hoje fui-me lembrando de mulheres idosas que, por uma ou outra razão estão ligadas à minha infância em Lagos. A minha bisavó Dlim-Dlim, assim alcunhada por nos baloiçar sentados no seu pé direito e que há muito vivia no mundo da imaginação; a avó Aldegundes, mestra doceira algarvia sempre de mesa posta e porta entreaberta; a avó Naicinha, mulher rija da serra, alegre, cantadeira e conhecedora dos segredos do campo; a Ti Torres que morava atrás do cemitério e amanhava os braços e os pés torcidos, a Ti Estrudes do Ti Henrique que já não saia de casa e ficava na janela a perguntar as novidades e a coscuvilhar o mais que podia, a Ti Piedade quer-matar que aviava as pevides e as alcagoitas à porta do cinema, a D. Augusta parteira e mais o seu 4L pintado com tinta de parede, a Etelvina rua acima rua abaixo nos recados à D. Pepa, a senhora Adelina encostada à telefonia que debitava notícias do mar, a doce menina Otília e a ríspida D. Bibita onde todos os miúdos andaram na escola-paga, a Ti Bia da venda onde se vendiam os melhores pirolitos da Porta-dos-Quartos, a senhora Chica das bananas na Rua Direita, a senhora Virgínia da fruta na Praia da Batata e as avós todas que nos esperavam na volta da escola com pires de arroz-doce, ralhetes, recados e mandados mas principalmente com colos disponíveis e estórias tantas de contar e sonhar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

amor ???

descer à terra. matar a rebeldia. calar. ouvir. acatar. aceitar. falar baixo. crescer. acordar. acalmar. parar. entristar. preocupar. nunca ir. não brincar. interdito sonhar.

e apodrecer, não?


lll

quinta-feira, 16 de abril de 2009

não há palavras ...

disseram foi pró céu e mora nos nossos corações.

na ponta do sal parece o céu é maior e o silêncio do marulhar abranda o coração.

afinal era mentira.

nem rasto.
só dôr.

revolta também.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dizer o quê?



Há apenas umas horas o Santiago cantava o "patinho" e batia palmas de alegria. Atirava beijinhos, gatinhava a 100 à hora e pulava de colo em colo. Há apenas umas horas o Nelson e a Patrícia eram uns jovens pais orgulhosos das gracinhas do seu rebento. Há apenas umas horas o sol brilhava entre os pingos de chuva e um arco-íris iluminava o cinzento escuro do céu.

Tudo se apagou. Escureceu de breu.
De nada serve dar murros nas paredes, soltar palavrões, tão pouco chorar.
Reclamar? Implorar? A quem?
Afinal, quem mesmo é que manda na vida?

terça-feira, 7 de abril de 2009

ASSOMADA ki ta rabenta

Desde sábado que as nossas princesas estão a participar no Torneio Internacional de Andebol do Seixal nos escalões de infantis, iniciadas e juvenis.

Durante a semana vamos lá ao final do dia levar e receber os mimos, ouvir as queixas,as saudades e as novidades de cada dia.


Aqui que elas não escutam até se pode dizer: - São tão giras!!!

E o bom que é sabê-las tão bem entregues ao cuidado das companheiras mais velhas, juníores ainda, mas com grande sentido de responsabilidade técnico e humano. Orientando os jogos, tratando as que se magoam, ralhando quando preciso, zelando para que se alimentem e descansem devidamente, que cumpram as regras e que aproveitem a oportunidade para se divirtirem e fazerem novos amigos.

Dá, Leila, Sofia, Célia, Susy e Edna, brigadão meninas.
Elas dizem que vocês são assim um bocadinho más.
É só porque estão a desempenhar bem o vosso papel.

Miriam, Sónia, Anissa, Jessica, Márcia, Marta, Vânia, Beti, Miriam, Sara, Débora, Miriam, Erika, Bebé, Andrea, Luísa, Odete, Jessica, Cristiana, Tchu, Solange, Tâmara, Claúdia, Liliana, Vanessa, Tânia, Sílvia, Maria José, Aninhas, Méri, Vânia, Mica e Carla, divirtam-se muito, portem-se bem e marquem muitos golos para a nossa Assomada.


Foto de Miguel Nunes, Jornal "A Bola"

domingo, 5 de abril de 2009

Ganho vida nos abraços calorosos de cada dia, nas mãos que palmam uma na outra com fervor, nas gargalhadas que soltamos e no entusiasmo com que acreditamos no que queremos seja.

Sei que continuo à espera. Não sei é bem de quê.

Ou saberei?

neblinas ...
ggg
ggg
gggggggggggggggggggggg
gggggggg
ggggggggggggggggggggggg
g
vem.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

são tretas, senhor

É pá que treta! Só agora é que percebi a quantos estivemos todo o dia e nem engrupi unzinho que fosse. Bom, quero querer que aquelas contas manhosas que encontrei na caixa do correio devem ser duns senhores brincalhões lá das finanças e que aumentar os imi's foi a forma mais engraçada que eles arranjaram de animar o contribuinte.

É melhor não pagarmos porque lá para a semana que vem devem mandar uma carta a dizer que afinal era a brincadeira do 1 de Abril e que estamos todos isentos.

Parece que não, mas ainda há gajos que são verdadeiros profissionais da aldrabice. O pior é que a malta já não lhes acha graça nenhuma.

terça-feira, 31 de março de 2009

adolescência

Será que a adolescência é mesmo um mal necessário? Quer dizer, a dos outros, porque a nossa foi mesmo imprescíndivel. Não fosse ela e a nossa mãe teria ficado convencida para o resto da vida que eramos assim uns desenchaibidos duns pãezinhos sem sal e sempre na dúvida a quem afinal é que tinhamos saído. Com certeza não era a ela que sempre fora jovem de dar trabalho aos nossos avós. Tudo por amor, porque não fora isso e a vida deles teria sido uma rotina do caraças numa idade em que ainda tinham energia para esbracejar, gritar, teimar e, na teoria deles, em caso de necessidade até lhe dar um bom par de estalos. Quer dizer, não foi só por amor à mãe e pelo desenvolvimento da sua capacidade de argumentação que nos armámos em parvos e em xicos espertos ocupadíssimos em praticamente todas as noites de sextas, sábados e domingos e mais nas outras de segunda a sexta em que tínhamos um monte de compromissos inadiáveis com os nossos amigos ou com os amores das nossas vidas. Também foi por amor ao pai. E como forma de estímulo ao diálogo entre eles os dois. Assim sempre tinham motivo de conversa e, palavra puxa palavra lá se entusiasmavam, enrolavam-se um no outro e nem davam conta da nossa hora de chegada. Isto não se chama dar a volta, chama-se amor ao próximo, que é uma cena muito à frente, para quem, como dizem os pais só vê o seu próprio umbigo e mais o corpo todo da paixão de cada dia.

- Dá para de vez em quando vocês fingirem que já são gente grande?

segunda-feira, 30 de março de 2009

ventanias

O vento sopra de Norte e o papagaio voa pra Sul.
Às vezes sobe tão alto que brinca com as nuvens e assusta a passarada.
Lá de cima ele vê o tudo muito bonitinho.
Lhe parece nem há tristezas, nem desgraças, nem diferenças.
E voa, voa, ao sabor da ventania.
Ao acender do farol de São Julião o papagaio desce,
contrariado por voltar ao mundo de verdade.
Sacudi-me de quilos de areia e de ilusões.
Também eu quero voar.
Novas nortadas virão.

domingo, 29 de março de 2009

bom proveito !

Depois de uma noite pouco dormida por sanguessuguice a um livro até ás tantas e imperioso despertar madrugador, nada mais evidente que resmungos e molenguice. Nem sempre o café faz milagres mas que ajuda ajuda. E sumo de laranja de verdade também. Parei no Pingo Doce de Linda-a-Velha para o tratamento. Praticamente a dormir em pé e à beira de uma crise de mau feitio se o efeito não fosse imediato. O pessoal, apesar das senhas numeradas de vez, sempre se amontoa e acotovela na esperança de primeiro serem atendidos. Fui na onda. De repente acordei com o pedido do casal vizinho.


- Quero um galão claro com descafeinado e adoçante e um pão de padeira branquinho mal cozido com mais manteiga do que é costume, queijo e fiambre a dobrar, metade para embrulhar e o meu marido vai beber um café cheio em chávena escaldada com dois pingos de leite, um pastel de nata morninho, dos tostados e com pouca canela. Aqui tem dois euros. Se quiser tome lá cinquenta cêntimos e dá-me um euro de troco para lhe facilitar o raciocínio.

E dois copos de água se faz favor. Mas passe-os primeiro à torneira pra não estarem quentes que dão mau gosto à água e como é pra tomar comprimidos...

sexta-feira, 27 de março de 2009

estamos a quantos?



Nunca sei bem que dia é do mês e às vezes até dos dias da semana desconfio. Oriento-me pelos horários das escolas e dos treinos e sábados e domingos é consoante os escalões a jogar e as idas aos escuteiros. Nem tão pouco às datas festivas o meu calendário se verga. Vai lembrando que o Carnaval é à terça - acho ainda é -, a Páscoa ao domingo e lá para Junho os feriados se encarrapitam uns nos outros que dá até para fingir umas férias.

Depois ainda há o dia do pai, da mãe, da criança, da mulher, dos avós e se calhar já inventaram do homem, do padastro, da madastra e do resto dos parentescos e características mais óbvias, tipo dia dos coxos de meia idade ou das balzaquianas grisalhas.

Mas hoje decidi festejar o dia. Vou vestir aquele fato de subir na vida que a D. Alice costurou com o pano di terra que o Xando me trouxe da Ilha de Santiago, calçaria até uns sapatos de salto daqueles em que até a minha perna roliça pareceria torneada, se de tal fosse capaz e estarei presente na cerimónia oficial do dia da mulher cabo-verdiana, organizada pela Embaixada de Cabo Verde em Lisboa e presidida pelo primeiro-Ministro Dr José Maria das Neves, com o objectivo de homenagear as mulheres duma terra que também sinto minha.

terça-feira, 24 de março de 2009

Diz-se o quê?

Tem épocas que as emoções são tão díspares que baralham a cabeça à própria. Fica sem perceber se deve parar de pensar e meter férias, tipo graciosas sem fim à vista ou se deve acelarar o raciocínio e tentar encontrar respostas, formas de luta e gente de sangue na guelra. Tiros no escuro. Muros no ar. Gritos surdos Uma treta é o que é.

Deixei-a à porta de casa às 11 da noite. Vai acordar às 4 da manhã, caminhar durante quarenta minutos até à estação mais próxima, apanhar o comboio das cinco e vinte para pegar ao serviço às seis e largar às oito e voltar a pegar noutro lugar à mesma hora e largar seis horas depois. Sente-se feliz porque a mãe entra à mesma hora e só sai às oito da noite. Tem 17 anos feitos ontem e a mãe está a caminho dos 36. As duas juntas recebem de salário quase oitocentos euros, pagam trezentos e cinquenta de renda, mais cento e vinte dos passes e outro tanto para a creche das gémeas. Lá em casa não há luz desde há muito tempo mas também não faz assim muita falta porque também não há televisão nem comida de sobra para guardar no figorífico.

quinta-feira, 19 de março de 2009

quantas horas teve o dia?

Há dias do caraças! Ontem.

O pobre do Manel amanheceu com uma daquelas tosses malucas que o deixam de olhos arregalados de susto, a querer falar e só sair aquele ronco de cão acoçado por botas cardadas. Um dia mais de meio para cirandar entre a sala de espera, o consultório, a salinha dos aerossois e o bar. Horas e horas de mimos, descanso e leitura. E mais pensar e falar baixinho e pôr conversas em dia.

Reunião de pais na escola por questões de comportamento e derivados. Faltas de educação e de concentração, excesso de alunos em sala de aula e consequente insucesso escolar. Mães e pais , direcção de turma e comissão executiva preocupados com o andar da carruagem e empenhados em pôr em prática planos e estratégias adequadas à resolução da situação.

Bimby. À partida, estas coisas das vendas ao domicílio com demonstração anexada não são o meu deleite, nem pouco mais ao menos. Mais ainda, desconfio de máquinas com muitos botões, ruídos estranhos e paredes opacas que escondem tudo o que lá se passa dentro e tenho sempre algum receio que percebam a minha desconfiança e, ao primeiro descuído me preguem um choque de pôr tudo quanto é pêlo em pé. A vendedora, demonstradora, cozinheira Joana era uma querida, poupou-me imensa trabalheira, deixou um jantar completo na mesa, com limonada, sobremesa e mais aqueles abraços e troca de galhardetes com o Marcelo, agora pai, marido e motorista ao serviço da família. Man, até o Marcelo se fez um homem!!!

De caminho e no meio das pressas ainda consegui dar um trambolhão tipo peixe atum a se esborrachar na calçada. Branqueei de vez e vi o mundo inteirinho de pernas pró ar, prós lados e também pra baixo porque ele rodava em todas as direcções sem querer parar para me deixar limpar os joelhos, estancar o sangue da testa, apanhar os óculos e seguir viagem, ao volante da carrinha, a caminho dos treinos. Elas assustaram-se e eu fingi que não mas tremia que nem tivesse entrado num dos congeladores da Docapesca.

Desculpa da Bimby, coincidências, o nascimento da sobrinha do Nilton na véspera, a Primavera a chegar ou o que fosse. Estendeu-se a mesa até não dar mais, esticou-se a toalha bem esticadinha e coubemos os dez e mais pratos e copos e panelas com as estórias e disparates todos que estavam por contar.

Foram indo. Deixaram e levaram o calor dos sorrisos e dos abraços que partilhámos.
 
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