segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tem dias

Tem dias não devia ter. Ou devia. Já nem sei. Ainda esta tarde alguém dizia que as vivências que doem nos fazem aprender e melhorar. Antes mais burra e pior eu queria hoje ser. Parece fervilha cá dentro. Pode até deitar por fora se não apagar o lume. Aí mora o difícil. Se apago piso e repiso numa frouxidão que nem emprestada é. Quanto mais minha. Se incêndio pega pode até queimar demais e se a água tarda em chegar lá se vai seara, monte e tudo.

Ouviste-me chamar-te?
Era só um abraço.
Só. E era tanto.
mmm

terça-feira, 13 de abril de 2010

Valproato de Sódio


Em nostalgia das minhas caminhadas pela Meia-Praia, deixei a prole encaminhada e lá fui, paredão afora, ainda que sem babuja nem cheiro de maresia.

Em passadas largas, fui-me alheando e deixando-me ir em preocupações, novas ideias mais ou menos loucas e sonhos impossiveis quase quase a ser de verdade. Nem teria dado conta da multidão e do jovem estendido no chão, não fôra ter escutado como que uma campainha pavloviana. Epilepsia.

Num repente e de rajada, nem filme a milhares de rotações passaram-me anos de vida pela frente. Também era jovem. Também tropeçara numa brincadeira. Também caíra e batera com a cabeça. Também estrebuchava e espumava pela boca revirando os olhos. Também os amigos estavam assustados e sem saber que fazer. Um dia também fôra assim comigo. Contaram-me.

Lembro que no depois, faltavam muitas palavras e fazeres e pessoas e vidas. A descoberta do descobrir demorou demais. Nalguns casos não voltou. Levou anos a partir e a libertar-me de vez das pastilhas coloridas que odiava e a quem me sentia acorrentada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

pressa de não crescer



Parece-lhes impossivel ter crescido num mundo sem telemóveis, hi5 ou centros comerciais e ficam extansiadas com a pré-história que foi a minha adolescência nos idos anos setenta e tal oitenta. Que faziamos, que falávamos, que música ouviamos, por onde passeávamos e namorávamos num mundo que lhes parece era parado, amorfo e sem interesse.

Falei-lhes de quilometros e quilometros à boleia para colar cartazes de espectáculos, de dias inteiros de Meia-Praia, da descoberta da cidade grande, dos namoros de Verão, das viagens de comboio todos os fins-de-semana entre Lisboa e Lagos, dos amigos e das músicas do Barimbar, das cartas chegadas e enviadas, do LP duplo do Simon e Garfunkel no Central Park, do Cinema Império e dos filmes poucos que por lá passavam, da Casa das Artes onde passei semanas de tardes a ler, dos passeios pelas arribas do Pinhão à Ponta da Piedade, do viver num quarto alugado e numa residência universitária, partilhando livros, experiências, saberes e comeres, da corrida do Hot Club até ao Cais do Sodré para o último comboio, dos almoços pelos jardins de Lisboa, das noites inteiras de conversa e de cantigas, da piscina e da pista de dança do Charlie Chilly da Aquazul, do regresso a pé da Horta2, dos banhos no canal da barragem em Arão, dos tantos casamentos em que toquei a Marcha Nupcial e a Oração de São Francisco, da minha banca no mercado da reforma agrária a medir tensões arteriais, da recolha de estórias, modas e mézinhas que fiz com os idosos da Santa Casa, de dormir ao relento, de ir à biblioteca buscar livros, de gravar cassetes com as músicas preferidas, de amar perdidamente e não ser correspondida, dos autocarros verdes de dois andares, do barquinho a remos para a Meia-Praia, de acordar de madrugada para ir à maré ao Rio de Alvor, da alfabetização de mulheres imigrantes, de amassar e cozer pão no forno de poia de São Marcos, de fazer brincos e pulseiras de missangas e arame cobreado, de ir à vindima aos Matos Brancos, de varejar amêndoas na minha Atalaia, de fazer babysitting a miúdos estrangeiros, de ler o Papalagui na Praia dos Estudantes, da desilusão que foi a Costa da Caparica, dos cafés intermináveis no Abrigo e na Britaica, das vidas contadas às escuras, dos acampamentos na Praia da Adraga, das muitas directas a estudar e a fazer trabalhos de grupo, do nascer da paixão, do gosto pela novidade e do eterno vício de sonhar acordada.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

vidas ...



Chegou há quase 20 anos. Jovem atleta, alegre e bem parecido, atrás do sonho de uma vida melhor. De andaime em andaime foi calejando as mãos e amealhando para uma barraca só sua. Em dúzia e meia de meses subiu paredes, rasgou janelas para o vale de Miraflores e pôs fogão, cama, mesa e poucos mais tarecos numa casa feita à sua medida. Poucas Primaveras depois o trabalho tornou-se escasso na grande cidade. Apanhou um comboio em Santa Apolónia e desceu na última paragem. Não sabia o nome do lugar mas tinham-lhe dito que, por lá a construção cívil ia em grande. Estava muito frio, já era noite e estava cheio de fome. Dinheiro nem vê-lo. Nem gente tampouco. Na manhã seguinte andou de obra em obra, pedindo trabalho. Afinal a fartura não era o que lhe tinham vendido. De pedreiro a servente foi o caminho para a sobrevivência e a fuga à miséria maior. À noite, quando se recolhia no contentor com os companheiros, alheava-se das brigas e das gritarias e sonhava com a vida de família que havia de construir na tal casinha com vista pró Mar d´Algés. Não sonhava que por lá, os buldozzers derrubavam, uma a uma, barraca a barraca. Chamavam-lhe irradicação e ofereciam promessas de progresso em prédios altos, sem quintais nem hortas e onde os autocarros raramente chegavam. No regresso, em vez da casa só achou pedras e tábuas e vidros sepultando os poucos haveres que eram seu único pecúlio. De repartição em repartição contou a sua estória. Técnicas e técnicos deram-lhe impressos a preencher e mandaram-no aguardar uma resposta que nunca chegou. Os documentos caducaram e os patrões fecharam-lhe as portas. A tristeza e o alcool roubaram-lhe o brilho do olhar. Acolheu-o a rua. Às vezes lembra-se que ainda existe e volta à luta pela identidade, por um trabalho, por um tecto, pela dignidade a que TODOS DEVERIAMOS TER DIREITO.



mmm

domingo, 7 de fevereiro de 2010

jeunesse, jeunesse


Como é que eu sei que chegou a altura? Como é que eu faço para a minha mãe não me prender tanto? Porque é que me apetece chorar quando não aconteceu nada triste? As minhas amigas dizem que é fatela eu ter preservativos guardados para quando acontecer … e se ele não tiver? As setôras dizem que eu refilo muito e que falo alto. Tenho que arranjar namorado depressa senão não tenho prenda no dia dos namorados e toda a gente vai perguntar o que é que recebi e eu não quero mentir mas também não quero dizer a verdade …

Quando andamos na creche é tudo fixe. Os anjos não percebem que as mães são infelizes nem que há contas pra pagar nem que os homens são quase todos uns filhos da puta que fazem filhos numas e noutras e não são pais de verdade de nenhum. Quando somos pequenas há sempre mães e tias e avós que nos carregam para todo o lado e tratam de nós e depois crescemos, e vimos a verdade, e parece ficamos parvas que já quase vamos na conversa dos rapazes, pra ser como foi com a nossa mãe …

Mas os rapazes também não são todos iguais …

Como é que eu sei que chegou a altura? Como é que eu faço para a minha mãe não me prender tanto? Porque é que me apetece chorar quando não aconteceu nada triste? As minhas amigas dizem que é fatela eu ter preservativos guardados para quando acontecer … e se ele não tiver? As setôras dizem que eu refilo muito e que falo alto. Tenho que arranjar namorado depressa senão não tenho prenda no dia dos namorados e toda a gente vai perguntar o que é que recebi e eu não quero mentir mas também não quero dizer a verdade …


... pois não?



mmmmmmmmmmm

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Amor

- Idade?

- 78 anos

- Estado?

- Quê?

- Se é casado ou viúvo ou solteiro?

- Casado.

- Há quanto tempo?

- Desde 2004.

- Então é recente o casamento?

- Tem 55 ano.

- Mas não disse que foi em 2004?

- Nós estávamos os dois há mais de 50 ano sem casar mas eu não queria morrer homem solteiro e disse que era para casar.

- E ela ficou toda contente?

- Não, ela nem queria casar. Então eu disse ela não casasse eu ia casar com outra porque homem morrer solteiro é coisa muito triste e então ela casou.

- Isso é que é amor...

- Isso do amor eu não percebo nada. Sei é que ela é boa companhia e muito minha amiga.

- E o senhor?

- Eu sou homem muito às direitas e nadinha de ser traquino nem 'trevido

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Bom dia Senhora Professora

Nem sempre a vida deixa os sonhos crescerem, ganharem asas e serem de verdade. Aos mais de setenta anos de idade o sonho de ir à escola chegou sem avisar. Uma mistura de nervoso miudinho, receio e alegria fê-los andar mais rápido, soltar a língua e contar lugares, momentos e desejos duma vida inteira de labuta em terra ainda alheia.

Parece até andaram mais rápido, ouviram melhor e compreenderam quase tudo o que já sabiam de cor e salteado. Coisas da vida que, afinal, foi a sua escola.

A ida à prova oral de língua portuguesa com um grupo de imigrantes idosos, que não tiveram oportunidade de aprender a ler e a escrever deixou-me tão mais rica. De saber e de coração.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Á hora da morte



E no silêncio do bairro solta-se um canto lúgubre. Arrepia de dor até numa tarde soalheira de Agosto. Àquele canto outros se juntam, anunciando a passagem da morte. Na casa da família enlutada adivinho o estender da toalha preta sobre a mesa, à volta da qual e durante uma semana, se rezarão terços. Como que na penumbra, começa a azáfama da maratona à volta do fogão e das panelas, preparando refeições para os muitos que virão despedir-se do finado e consolar a família.

Durante o funeral, em cortejo compassado, um canto polifónico de esperança em Nhor Deus e na eternidade ecoa pelas ruas que separam a igreja do cemitério. De quando em quando, como se de improviso se tratasse surge um canto chorado que fala dos laços, das vivências e da dor que existia com o ente perdido, ganhando intensidade e frequência com a proximidade da despedida.

Dando vida à hora da morte.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Planos de voo


Quando a Sandra chegou, no calor de Julho, trazia um franzir de testa e uma disciplina regrada de consultora experiente que senti, nos abanou a todos. Pôr pontos nos is, limar arestas, formar e programar futuros fazia parte dos seus planos. Dos nossos também. Só ainda não tínhamos as certezas do pouco depois, logo logo já a seguir.

Em determinadas alturas, entrefechando os olhos, imaginava um daqueles papagaios de papel coloridos que, em fim de Verão, gosto de lançar lá bem no final da minha Meia-Praia, sempre acreditando que o fio jamais chegará ao fim. A Sandra, como que chegava de mansinho, esticava o fio e prendia-o bem seguro num rochedo firme. Lá cima, no céu azul, o papagaio planava, mantendo a cor e o sonho mas ganhando rota, velocidade e destino.

Sandrinha, contamos contigo nos próximos voos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

nostalgia

Os olhos da minha mãe nunca foram muito brilhantes. Condiziam com o ar triste e belo que sempre lhe conheci. A sua serenidade contrastava com uma quase permanente preocupação com o que não nos preocupava a nós, tidos por ela como seres pouco responsáveis e demasiado optimistas perante o estado da vida e do mundo. Houve alturas que me pareceu que, assim como nuns repentes de luz, se permitia ser feliz. Dançavam os dois sempre de olhos nos olhos e lia-se que, apesar dos muitos anos, das zangas e discórdias, a paixão nunca morrera. Numa noite como as outras, ele abriu muito os olhos verdes e disse-lhe que parecia tinha chegado o fim. Infelizmente não se enganou. Os olhos da minha mãe perderam o brilho, o cabelo embranqueceu de vez, o mundo vestiu-se de negro e a casa da minha infância tornou-se um lugar de silêncios, sombras e dor. Cada vez dói mais vir a Lagos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Vó Natalina

Nem sei bem porquê mas hoje lembrei-me amiúde da Vó Natalina, anciã de origem africana com quem me vou cruzando de quando em vez. Falamos dos filhos, dos netos e do tempo mas nunca de mazelas, tristezas ou desventuras. Ela diz que a fazem ficar mais manca, mais feia e lhe tiram anos de vida.

Quando numas manhãs de fim de Verão começámos a falar da possibilidade de ir à terra rever família, lugares e amigos, Vó Natalina animou com a ideia da viagem e de se livrar por umas semanas da rabujice de quem doze filhos lhe dera a parir. Já praticamente de malas aviadas de roupa nova e presentes para os sobrinhos mais que bués, comunicou, solenemente e de cara fechada que já não ia e nem valia a pena insistir porque a decisão estava tomada.

Tinha revisto a sua vida desde a partida do lá longe, há quase quarenta anos, quando, segundo ela, era jovem, bonita, bem grossa e moça muito desejada pelos jovens casadoiros da terra. Não os podia desiludir, voltando velha, gorda, desdentada, manca e, ainda por cima, comprometida com o Jaimito na graça de Deus nosso senhor até que a morte o levasse, porque ela ir à frente pró buraco é que era coisa que nunca haveria de consentir.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nos dias e dias, anos e anos vamos vivendo um rol de personagens que fazem as nossas vidas mais ricas e plenas. Depois da correria, da canseira, das dúvidas, dos desalentos e dos desafios que vamos ganhando ou perdendo existem aqueles momentos curtos, quase de fugida que valem pelas férias caribenhas a que nunca chegaremos. Momentos de paz, de carinho, de reflexão ou simplesmente de paragem, de silêncios e cumplicidades.

Noite fora, de Belém à Trafaria, indo e vindo, ao sabor do horário do cacilheiro, da música saida do ipod e dum lanche embrulhado às pressas. Deixarmo-nos ir adormecendo e acordando, entre palavras, enquanto lá fora a chuva cai, as ondas galgam os rochedos e o farol do Forte de São Julião nos liga à firmeza da terra.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Terra à vista ?

Tem dias o mundo parece quase perfeito. O sol brilha até quando chove a potes e o luar espalha prata em noites de lua nova. Nesses dias todos os meninos cantam canções de roda, dão as mãos e acreditam nos amanhãs sonhados. Nos outros tantos dias que sempre são demais, parece o sol se cobre de geada e a lua de negro se veste. As mantas não aquecem o Agosto das vidas e as estrelas não iluminam as estradas que sempre se transformam em lugares sem saída à vista.

No sempre depois-já-quase-a-seguir, as feridas saram, os caminhos voltam a ter rumo e o sol e a lua seguem o seu percurso estudado de fazer dias soalheiros e noites luarengas, trocando-nos as voltas em eclipses não previstos na metereologia do canal público.

Assim têm sido os anos passados. Despedimo-nos do sol à tardinha, na babuja salgada de mar chão ou revolvo, consoante os dias e acordamos na partida da lua, fresca de geada ou seca de tanto estio. De quando em quando também ela entardece a tempo de ele se despedir ou então é ele que a espera na linha recta do oceano, ambos em sede de reencontro e desejo de passos paralelos.


Tenhamos nós a capacidade de pegar numa mão cheia de boa vontade, tolerância, criatividade qb, amor próprio e ao próximo, acrescidos da experiência e trabalho acumulados, produziremos certamente obra com sucesso garantido.

O que não quero não é a lua quase cheia nem o sol de Outono. É mesmo e tão só a escuridão do céu que quero azul seja noite ou dia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

15anos15anos15anos15anos15anos

Agora já nos finais de Outubro, quando a escola e os treinos já estabilizaram e deixaram de ser novidade, sobra mais tempo para as conversas, silêncios e desabafos. A carrinha cheia de miúdas com a adolescência a explodir por todos os lados, cheias de dúvidas e preocupações sobre assuntos deveras preocupantes: rapazes, amigas, beleza, rapazes, comida, rapazes, amigas e as quase terrriveis mães que praticamente acham que mandam nelas, naquela roupa preferida que acusam de ser de menos, nas horas de chegar que acham sempre a mais e ainda na escola que têm sempre a certeza que não tem a atenção merecida.

Falam tão alto que até dói lá no fundo dos ouvidos. Confesso que já teve dias que os atulhei de algodão, correndo o risco de nem ouvir alguma sirene que me avisasse que estava na hora de mudar de rumo, não fora encontrar-me com alguém, ainda que amigo, que não apreciasse assim onze ou doze miúdas mais eu dentro duma carrinha supostamente para nove pessoas. Eles às vezes são assim um bocadinho pouco compreensivos, exageram, nem percebem que elas são fininhas e que aconchegadas umas às outras até vão mais seguras.

E falam todas ou quase ao mesmo tempo. E cantam. Daquelas músicas fantásticas que falam de amor e de traição e que fazem choram as mais rústicas pedras de calçada. E contam, contam, contam. Da escola, das amigas que afinal não são bem amigas mas que amanhã ou daqui a bocado já são de novo, daquela imensa paixão que tira o sono à noite e o traz de volta logo na primeira aula da manhã, exactamente quando a setôra estava a explicar a matéria que saiu no teste de hoje e vá lá ver-se se não foi até de propósito, porque há setôras que até são más. As tais que não são bem amigas é que são um bocado anhadas e ainda têm a lata de dizer que foi bué fácil e isto tudo só porque o miúdo mais giro lhe calhou par na equipa de badmington do ano passado e foram juntos às finais ao Norte e ficaram lá sózinhos com a DT um fim-de-semana inteiro.

Elas não sabem é que ele afinal não foi o garanhão que ela descreveu pois muito pelo contrário. Mas se lhes contasse que o dito chuchava no dedo, chorou com saudades de casa e, pior de tudo, dormiu sempre de meias e pijama de flanela a sua reputação estava concerteza completamente arruinada.

E há riscos que uma miúda não pode correr ...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

contra a corrente

No princípio é sempre era uma vez de qualquer coisa. Já não lembro qual. A nossa estória de cumplicidade foi uma vez dum dia qualquer, quando os tempos ainda não eram comuns nem o querer caminhava em sentido único. Com o correr do tempo passámos a adivinhar as palavras por dizer e os anseios por alcançar, os apertos no peito e as graças que nos fazem gargalhar até doer quase tudo. A bola que girava apenas no campo passou a rolar ao ritmo dos meus fins de tarde, em cada giro que a carrinha faz pelos bairros; as más novas que lia apenas nos jornais ganharam outras perspectivas e trouxeram revolta pela inércia dum sistema que apenas vislumbra o só amanhã, não apostando em metas parcelares com lucros não imediatos. A incapacidade para continuar projectos já iniciados com fim à vista, a dor pela falta de participação activa de quem de direito, que afinal somos todos nós, a ignorância face ao óbvio que é o futuro social comum das gerações vindouras rouba-nos, em momentos de fraqueza, aquela força de lutar pelos amanhãs sonhados em que acreditamos, mesmo quando razão e as leis dos homens nos querem destinar o contrário.


Mana, nos sta djunto. Pa venci.


mmm

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sem palavras

querida isabel,

passou quase um ano desde que te perdi o rasto. mergulhei por lugares que desconhecia existirem, rodei quilómetros procurando uma pista, escrevi centenas de mensagens que não chegaram ao destino e fiz-te morta quando tive certezas que estavas viva.

continuo por cá. nas mesmas lutas, nos mesmos lugares, acreditando quantas vezes no impossível e comprando guerras que podia fingir são de paz. sonhando demais provavelmente. ou fugindo do que me assusta e tormenta.

quantas e tantas vezes pensando por onde andas, que pensas, se sofres, se ris, se me riscaste da tua vida, se voltas, se ... duvidando da força do querer e abandonando esperanças vãs dum reencontro intemporal.

bastou ouvir-te a voz para que um misto de serenidade, pranto e vitória se instalasse. Tem vezes a razão é fraca e só o coração tem palavra.

ainda bem que voltastes.

domingo, 23 de agosto de 2009

De volta à labuta

Meus queridos CDA's,

Claro que estou cheia de saudades vossas e dos vossos fantásticos abraços e mimos mas bom, bom, era poder juntar esta maravilhosa suestada numa trouxa de pano di terra, levá-la comigo na furgoneta e, à chegada, espraiar a Meia por inteiro aí mesmo no terraço do nosso atelier ou no parque, entretanto já quase despido do nosso festival de emoções.

Quase tenho peso na consciência de ter tido o atrevimento de vir de férias e deixá-los aí todos na labuta. Mas aqui a mamacita não esteve só a banhos e a curtir o terraço e os petiscos da avó Maria que, confesso aqui entre nós não está fácil de aturar, é a verdadeira mãe de filha única, com todos os caprichos e casmurrices a que tem direito mas também com as lamechices e todas as coisas boas que só as avós parecem saber de cor.

Volto de energia em alta depois de muitas horas de sono, de livros e de Meia-Praia. Devia ter acabado relatórios, disfrutado algum tempo com os amigos de cá, tratado daquelas burocracias infernais de finanças e afins, mandado caiar os muros e limpar as valas e até jantado num lugar simpático nem que fosse uma só vez, mas, desta vez, só consegui mesmo ser mãe relativamente atenta, filha pouco dedicada e salvadora do que ainda de mim restava.

Daqui a uns minutos abalo. Deixo os gaiatos e o pai deles em mais um fértil período de avósanso e vou por aí fora, de janelas abertas, música alto, direitinha ao CCB para o espectáculo dos Terrakota. É lá que nos encontramos, não é?

Beijos, beijos, beijos

mmmmm

domingo, 2 de agosto de 2009

Verão no Parque

O VERÃO NO PARQUE tem vindo acontecendo no sonho, no trabalho e no coração de todos os que vestimos a camisola desta equipa. A última semana foi o descobrir como tudo o que até então eram só palavras no papel era na verdade, ao vivo e a cores.

O Parque da Quinta do Salles tem sido palco de múltiplas vivências formativas e lúdicas, de partilha de saberes e de encontro de quem bem se quer. Vibrámos todos com os Terrakota, a Marta Plantier, a nossa Valéria e a Lura. Dançámos e cantámos juntos até o que não sabiamos de cor, inventámos soluções para os imprevistos entre aulas de capoeira e de kizomba, de pincel ou de chave de fendas nas mãos, acreditando sempre que sempre é possível.

Subi agora ao atelier para apanhar um panelão de sopa que as mães fizeram durante a tarde. Lá em baixo, na relva, as tendas estão montadas em meio círculo, de frente para o palco. As guitarras soam, os jovens rappers cantam ao desafio e os mais piquinotes vão-se encostando, ao sabor das estórias que se vão soltando.

Não sei se foi isto que sonhei mas não tenho dúvidas do quanto sou feliz nesta comunidade que, há muito, tão bem me acolheu.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Maria

Tem dias que ou desço à terra ou é mesmo a terra que se eleva e me toca os pés, quase me puxando e obrigando a criar calçada. como a luz que se acende no tablier mostrando o depósito em estado de quase parar. o despertador que lembra uma alvorada tardia que apetecia não ter chegado. a carta das finanças que fala dum imposto por entregar. a roupa que cresce em pilha pedindo ser engomada. a balança que não se inibe de mostrar em números robustos o que não devia acontecer. a tosse seca matinal em castigo aos cigarros da véspera. as horas que se recusam a demorar nem que seja tão só mais uns minutinhos que sessenta.

A chegada da Maria foi a calçada alinhada, o depósito quase cheio, as horas que até parece têm mais tempo. Não sei se é uma espécie de grilo falante se uma voz em gestos precisos de segurança, mas sei que lá de dentro vem coisa boa.

Ainda bem que vieste.


,,,

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Nô djunta mon

Foram chegando pouco a pouco e num repente já são mais de trinta. Os jovens do bairro, mais uma vez responderam à chamada e, quando ainda faltam doze dias para darmos início ao VERÃO NO PALCO, os nossos voluntários trocam experiências em dinâmicas de grupo orientadas pelo Hélder e pela Maria.

Correm, riem, jogam, juntam-se e desjuntam-se em grupos, consoante as indicações dos moderadores. Silenciam nas explicações, colocam dúvidas e correm de novo pelo terraço, já sombreado pelo tarde da hora. Quando forem grandes querem ser jogadores de andebol e de futebol, bombeiros, polícias, professores e artistas. Os que já são grandes vão galgando caminhos e cruzando metas. Mas todos eles não nos deixam dúvidas quanto à sua generosidade.

Juntos desenharemos os amanhãs sonhados.
kkk

terça-feira, 14 de julho de 2009

de caminho


As nuvens mal correm no céu da Outurela. O bairro prepara-se para adormecer. Só a brisa sopra de mansinho, como que para me trazer as últimas risadas e cantorias que ainda soam no parque. À noitinha, quando o trabalho já esmoreceu, o silêncio quase se ouve e a tijoleira ainda amorna os pés descalços, parece todos os amanhãs são possiveis, belos e de paz.


Acendo um último cigarro, aterro num dos pufs do terraço e deixo-me ir, sonhando .

quarta-feira, 24 de junho de 2009

do fundo do coração

Escrever cartas a quem se ama é sempre um bom incentivo para aprender a juntar letras e formar palavras. Tem sido assim, todas as manhãs cedo, enchendo folhas de papel pautado enquanto o parque acorda e os telefones ainda não tocam. Cartas de saudade, de desabafo, de reeinvindicação, de amor sonhado. Umas vezes de verdade e outras assim a modos que de faz de conta mas, sabemos ambas, é nessas que o coração solta a mordaça, fala solto e nos deixa a cabeça à roda, cheia de dúvidas e de vontade de traçar novos caminhos.

Se calhar devia ensiná-las a escrever só cartas de mentira, daquelas que começam por "Queridas primas, Desejo que esta carta as vá encontrar de boa saúde que eu estou bem graças a Deus", que terminam com "muitos beijos e abraços desta prima que muito vos estima" e que pelo meio falam do sucesso do emprego dos filhos, de como os netos vão bem na escola, da televisão nova que acabaram de comprar e do bom que é viver na Europa.

Mas essas são as cartas que depois da lição são deitadas no marco do correio. As outras, as que nunca são enviadas, falam das fraquezas, da pobreza, dos maridos ausentes, da falta de amor, da luta de cada dia, das patroas, do frio do Inverno, da demora dos documentos, da sede de afago,daquele aperto no peito que tira vontade de tudo e do grito rouco que vem lá do fundo e dá aquela força de continuar a acreditar em amanhãs melhores.

Esta noite, quando todos dormirem, vou escrever-me uma carta.

ssss


quinta-feira, 18 de junho de 2009

primeira vez

Por mais vezes que se fale da primeira vez, jamais alguma primeira vez perde o sabor da novidade e o arrepiozinho do desconhecido.

É o primeiro dia de escola com tantos novos amigos, a professora, boa ou má que nunca vamos esquecer e aqueles recantos de recreio que se vão tornar a nossa casa;

O primeiro amor, que brilha mais que a estrela mais brilhante que agora vislumbro pela janela escancarada ;

A perda do carrinho mais veloz que se acidentou escadas abaixo, a mancha de tinta verde no vestido preferido, o primeiro dente de leite a abanar, o nosso nome escrito em letra de mão e sem ajuda no caderno diário, as manhãs as tardes e as noites que passam a ser tantas horas e tantos minutos, lidos a custo num mostrador de relógio, a bicicleta que finalmente deixou de tombar e aquele miúdo parvo que não nos sai da ideia.

A descoberta do próprio corpo, o prazer e a dor da paixão, a primeira saída à noite com os amigos, de cigarro e cerveja em punho, ainda com horas de voltar mas com chave de casa no bolso, o calor do desejo e a pressa de o calar.

Ir de férias sem escolta, tirar a carta, subir saias e descer decotes à medida da moda e dos desejos de cada dia, ganhar a vida, descer a rua de saltos altos, despedir o acne, votar, atravessar o Tejo de cacilheiro, negociar o aumento de salário, jantar à luz de velas, dar sangue, dormir ao luar, separar o lixo, fazer greve, usar óculos, adormecer no comboio, ir à Meca sonhada ou simplesmente pintar as unhas das mãos.

terça-feira, 16 de junho de 2009

ser mãe

há exactamente vinte e um anos, por esta hora, desciamos a avenida da liberdade com destino ao cais do sodré. no vagar do caminho subimos no elevador de santa justa e deixamo-nos ir atrás dos sonhos. no passadiço para o carmo demoramo-nos em longos beijos e abraços apertados. lá em baixo, na rua garrett, encostado a umas floreiras que lá havia, um jovem flautista tocava uma melodia que ainda hoje guardo, acho que no coração. no céu brilhava uma lua quase cheia e a brisa soprava de mansinho, levantando o vestido leve e florido que me cobria. apanhámos o último comboio e regressámos num dos primeiros. de mala na mão, aperto no peito e uma espécie de receio do desconhecido desejado que estava mesmo já a bater à porta. lutámos pela liberdade entre gritos e penumbras. num repente de dor aguda fez-se à vida. senti-o quente e húmido sobre o meu peito. pulsando vida.
a nossa vida.
mmm

segunda-feira, 1 de junho de 2009

gente pequena

Dizia o poeta, que acho nem era muito chegado à gaiatada, que o melhor do mundo são as crianças. É. E bom mesmo é aquele bocadinho de gente pequena que vamos mantendo de saúde mesmo quando já somos gente grande. Aquele lado do disparate, dalguma inocência, de ter um gozo do caraças ao chupar um gelado de gelo ou ao inventar aquelas estórias fantásticas que viram vida de verdade.

Cresci filha única e fui ganhando irmãos com o correr dos anos. Coisas de coração. Além dos meus três rapazes há sempre um corropio de miúdos lá por casa e sobrelotando a carrinha, falando uns mais alto do que os outros num frenesim de quem tanto tem para contar que nem quer saber se é ou não ouvido.

Tropeçam em berlindes e em palavras, apertam-se em
abraços e em lutas, zangam-se, fazem cara feia e as pazes, dão mais abraços e prometem paz para o sempre que é já dali a bocado .

Vamos de barco até Almada para ver o Cristo-Rei bater as palmas, mas sempre chegamos depois da hora. Pelo caminho aproveitamos para contar alegrias, medos e truques de escrever cartas de amor em código, com sumo de limão e deitá-las na Praia de Santo Amaro ao cair da noite da próxima lua cheia.

Falamos de coisas sérias e obrigações. Pedimos humildade, educação, trabalho na escola e no pavilhão, respeito pelo próximo, cumprimento de regras e mais aquelas cenas todas que até nós sabemos são peso demais para quem ainda acredita que o mundo é lindo, ridondo e de todas as cores.

Ontem, no palco grande das Festas do Concelho de Oeiras, os miúdos do Centro Comunitário do Alto da Loba encheram-nos o coração. Crianças de diferentes nacionalidades apresentaram danças tradicionais dos vários países de origem. Africanos bailando e falando russo, brasileiros dançando o luso regadinho, moldavos rebolando num funaná a preceito e todos juntos, sambando, cantando, de mãos dadas pela amizade imensa que os une.

Às vezes, no fim do dia, não nos sobra quase nada mas acho já não seríamos capazes de viver longe desta algazarra, né mana? Eu chamo-lhe tempero. Tu chamas terapia. Há quem chame loucura ...
 
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