segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Estás aí?
domingo, 23 de novembro de 2008
Quem?
"... a gente só quer chegar a casa, encontrar o homem da gente com boa cara, dar uma esfrega e apagar, ..."
in "Navalha na Carne"
domingo, 16 de novembro de 2008
Por aí...
O bom que foi ripar umas dúzias de azeitonas no olival de quem bem nos quer, lá para os lados de Alcoentre. Mas como sempre, de fugida. O bom que foi vir por aí abaixo pela A qualquer coisa, entre vinhedos ocre e avermelhados, neste dia solarengo e luminoso, sentindo a frescura da brisa e ouvindo música bem alto, só pra mim. O bom que foi encontrá-las felizes e contentes ainda antes da hora combinada e muito antes do jogo estar ganho. O bom que foi ouvir notícias da emoção derramada no lá longe.
Aqueço as mãos na caneca de cacau. O mar marulha. O farol acorda.
Deixo-me ir ...
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
"Regresso às origens"
documentos. compras. fotocópias. faxes. mailes. telemóveis sempre a tocar. dúvidas? horas? pesos? moradas? contactos? doenças? mais telefones a tocar. mais papéis. mais cópias. e faxes que não chegam. e as horas que passam. e compras que faltam fazer. e. e. e...
Praça de Espanha!
Andar por ali é entrar um bocadinho noutros mundos. Quase quase viajar. Mistura sadia de muito. Gentes. Cheiros. Roupas. Sons. Descansa-me deslizar por entre as tendas. Parando nas bancas. Perguntando preços e cores e tamanhos. Conversando sobre tudo e sobre nada. Deixando-me ir na música das vozes desta babilónia de regateio de ilusões.
regresso à lida. impossível parar. acho nem conseguiriamos. e mais estrada. troca volantes. apanha miúdas. recolhe miúdos. entrega-os todos.respira fundo. segue. pesa malas entre jantares ao lume. encaixa quilos de alho. e folhas de louro que resmalham. falta knorr. corre para a loja. de carregador ou de pilha? pijama ou camisa de dormir? o remédio acabou. o frasco do creme partiu. passaportes e mais passaportes. fotocopia BI's e AR's pra quem é estrangeiro em terra praticamente própria. e faltam dois. foi só ao café. já saiu do café. tá mesmo a chegar. foi. fomos.
Quando subimos o Alto da Loba em direcção a Caxias a lua rompia. Marela. Ridonda. Lá em riba, na céu. Parece queria iluminar-nos o caminho. Acho até queria era fazer a noite dia. Conseguiu.
arruma. imprime. emaila. assina. confere. rasga. escrevinha. e ri. de cansaço. de dúvida. e fecha a mala. e o saco. pega a bagagem de mão. e a malinha de primeiros socorros. olha o portátil. e os documentos. confere. conta. ata fitas. põe cadeados. e chora. de dúvida. de cansaço.
O sol já brilha. De bairro em bairro esperam-nos sorrisos abertos e fatos domingueiros de dias felizes. Chegou o dia. De bairro em bairro. Parando. Abraçando. Acenando. Indo. De bairro em bairro. Deixando esperança. Alimento de vida.
No âmbito do projecto da Associação de Solidariedade Social Assomada "Regresso às origens", com apoio e financiamento da Câmara Municipal de Oeiras, partiu hoje para o seu Cabo Verde natal, um grupo de 20 idosos, residentes no concelho de Oeiras e que não visitavam o seu país há mais de 25 anos. Vão abraçar familiares e amigos, conhecer irmãos, filhos, netos e sobrinhos, chorar sobre a campa dos pais e cumprir a promessa guardada desde o dia da partida: voltar!
- Mana, olha por eles. E Nhor Dês tambem.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Tenho frio
Acho hoje nublei. Já amanheci enevoada e todo o dia ameacei tempestade. Pluviosidade acima de qualquer média prevista para a estação. Quase quase a trovejar. Cá dentro tudo relampeja. Ao primeiro ribombar, a Santa Bárbara perde autoridade sobre o catavento e, céu afora, desenharemos caminhos directos aos sonhos. Não demores, tenho pressa de amar.
domingo, 9 de novembro de 2008
Dia de domingo???
Neste fim-de-semana os três escalões - iniciadas, juvenis e juniores - estiveram em campo e todos três somaram mais uma vitória.
É um prazer do tamanho do mundo ver o pavilhão cheio delas, umas assistindo ao jogo das outras, apoiando as mais novinhas, partilhando lanches e trocando piropos na viagem de regresso.
Não sei se esse é o lado direito ou o esquerdo da minha vida. Se calhar é ainda um outro dos não sei quantos que vou descobrindo.
E da adolescência delas salto para a adolescência masculina que mora cá em casa e que começa a despertar. E mais a que já está demasiado acordada para o adiantado da hora do dia. Todos de boca aberta, na ânsia duma refeição quente que tão sofregamente vão devorar, que nem saberão contar do que se tratava.
Não nasci para fada do lar, e isto é mesmo um desabafo. Com tachos e panelas, fogões e colheres de pau faço o gosto à minha faceta de boa cozinheira de intervenção rápida, mas quanto ao resto ... acho até que quase mais valia era voltarmos à moda da idade da pedra e usar assim umas vestimentas que não carecessem de ferro de engomar.
Hoje tinha que ser o dia. A roupa foi amontoando muito para além do previsto e, praticamente já nem havia lugar onde sentar. A ponta dum lençol acenava-me de entre duas tichartes e um par de meias por enrolar, tropeçava numa manga de camisa e sentia-me ameaçada por uma rima de toalhões prestes a desabar. À minha passagem, com toda a certeza. Cedi. Montei a bela da tábua de passar e mãos à obra!
Horas e horas de combate aguerrido.
Acabei de acabar e cumpri o prometido. Meti-me na carrinha, rumei ao McDonald's de Carnaxide e deliciei-me com um enorme sundae a nadar em chocolate quase morninho e atulhado de crocantes amêndoas torradas.
Coisas de mãe de família...
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Pariçú bazu!
Não foi homem de nenhuma. Gostava de seara alheia.
Não foi patrão de ninguém. Encomendava serviço.
Não que já fosse cota. Já não ia era pra novo.
Nunca conhecera letras. Universidade da vida...
Manco duma perna só. Da outra fazia oitos.
À noite lia as estrelas. De dia descansava as vistas.
De santo não tinha nada. Também não era mau homem.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
No soy digno de ti
Estava lá. Naquela rampa de calçada, que sobe da estação da Damaia em direcção à Buraca. Ali, mais ou menos a meio. Como se estivesse à espera dum tempo que nem sabe já passou. Casaco de cotim puido de muitas madrugadas de rua, boina à banda qual Che sem bazuca, mão estendida na espera de nada,olhos esbugalhados de mágoa e voz rouca de vidas perdidas em garrafas de litro.
Falava de si. Para si.
O rádio rosnava o velhinho "No soy digno de ti".
Gargalhou.
- Tu é que tens razão ó aparelho, eu não valho mesmo nem um par de pilhas novas ...
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Invernando
Quer dizer, nem tudo é ruim. Há aquela parte dos cházinhos de ervas, da magia do lume na lareira, das cores, dos cheiros e da luz da Serra de Sintra em despedida de Verão, dos passeios matinais por praias desertas e da baixa lisboeta iluminada de solidão na espera de mais um Natal.
O pior é mesmo o Novembro. Emaranho-me nos cachecois e não acerto com a quantidade de camisolas. Aqueço de menos a água do saco e deixo acabar a lenha. Depois vou-me acostumando, e quando a Primavera chega, continuo a andar de capote e carapuço, a emborcar copázios de sumo de laranja e a embrulhar-me numa manta eternamente esquecida no sofá.
Até lá o melhor dos meus Invernos há-de chegar. Uma tarde inteira de sorna entre as dunas da Ponta do Medo, enroscada num já muito usado cobertor, escutando tudo o que o mar tem pra me contar, entre o sal molhado das lágrimas dele e das minhas. Tem vezes discordamos e grito com ele. E choro e blasfemo. Tem vezes chove. E caminho. De costas viradas para a ria, despertando gaivotas e desafiando o vento.
Bebo umas goladas de café directamente do termo. Sacudo o excesso de maresia e faço-me à estrada. Parece nasci de novo.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Inocência?
- Olá. Não me conhece?
- És filha da Marta?
- Não, sou sobrinha.
- Tás muito gira.
- Tou é assim pequenota ...
- Mas vais crescer num instante. És de que ano?
- 1995. Fiz 13.
- Agora com o desporto é que vais dar um pulo grande. Vais ver, não tarda nada e já tás aí toda esbelta...
- É...
- E essas maminhas são todas tuas?
- Mais ou menos...
- É???
- ... Deixe estar que eu depois deixo-a brincar um bocadinho às avós.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
por aí ...
José Peixoto e Filipa Pais em "Dia da Tentação"
Quero tanto sem nada querer.
Desconheço o que desejo mas anseio a sua inesperada chegada.
Sem dia, sem hora e sem lugar marcados.
Se calhar, nunca chegará. Ou já passou, até, e nem dei por isso.
Deixei ir num sopro dum faz de conta que não era. E foi.
Tantas horas estou sem estar.
Ausente do mundo, voando em delírios que quase são verdades absolutas.
As minhas verdades. Ou será loucura?
Bem vindo é quem acreditar que o sonho, já dizia o poeta, comanda a vida.
À velocidade dum piscar de olhos tudo muda.
Acordar? Não sei se quero ...
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Querida televisão?
Muita gente amiga teve intenção de oferecer uma televisão mas consegui ir explicando que estávamos bem assim e que no Inverno logo se veria e tal e coiso e pardais aos ninhos a malta ia achando estranho mas encaixando, até porque quando passavam por cá até sentiam que sim senhor até era uma boa opção.
Quando havia assim um desafio de futebol, daqueles que aqui a rapaziada e até eu achávamos imperdível, lá iamos jantar uns grelhados a uma daquelas tascas que têm sempre o bendito aparelho ligado à hora das refeições. Do que eu sempre reclamei, aliás, mas que agora dava imenso jeito. E depois tinham sempre os fins-de-semana e férias em Lagos, na casa da avó, para se encherem de eurosport e national geographic.
A avó, essa mesmo, é que nunca mais dormiu descansada porque isto da televisão faz muita falta numa casa e porque toma e porque deixa e que não faz sentido nenhum viver desinformado e porque estão sempre a dar programas que até eu havia de gostar quanto mais as crianças e ... por aí fora.
Hoje, logo logo de manhãzinha, dois desconhecidos entraram-me pela porta com um enorme pacote postal proveniente de Lagos. Deve ter entrado nalguma loja e não resistiu à tentação. Só faltou embrulhá-la em papel de seda com um belo dum laçarote de fita metalizada.
Quatro pares de olhos esbugalharam. As respectivas bocas escancararam de pasmo. Estão lá, como que hipnotizados, sentados no sofá, repetindo: "Que fixe!"
Não gostei. A tal mal chegou e já a sinto a mais.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Sempre defendi que não são os laços do sangue que fazem o parentesco, mas os do coração e da inteligência. Dói igual seja ou não sangue do nosso sangue que sangue nos faz, que feridas abre, que nos desilude. É sempre dia de festa quando um dos nossos alcança o desejado, marca aquele golo, é bem surpreendido pela vida ou o tecto não lhe cai em cima.
Devo muito às tantas pessoas diferentes que têm passado pela minha vida e que me foram deixando bocadinhos de si. Essa é a família que se foi construindo, ano após ano, fruto da amizade, da tolerância, da entreajuda e também da mutua crítica e quantas vezes da discórdia com acordo à vista.
Desejo muito do que ainda não fiz.
Continuo a acreditar que este é o caminho.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Marés
Led Zeppelin, "Stairway to heaven"
Tem horas parece deixei um pé esquecido numa sapata de betão e que nem tu viesses eu ia querer abalar.
O mar vem, vai , volta, torna a ir, nem eu sonhando. Sem saber quando lá ou quando cá. Deixo-me ir, assim, que nem chuva cai do céu, desce ribeiro, e vai, vai, até uma praia, de encontro ao mar.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Vir e talvez voltar
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Paulinho Pargana
Brigamos e fizemos as pazes vezes sem conta, ganhámos e perdemos contratos Páscoa sim Páscoa não, jogámos berlindes e ao mata, às estátuas, ao pisa e à verdade e consequência. Aprendi a tocar na guitarra que os pais lhe trouxeram de Espanha e começou a gostar de ler com a "Crónica dos bons malandros" que recebi de presente. Trocámos almanaques, cromos e as confidências dos primeiros amores, ouvimos os discos e as cassettes todas da moda e até os pirosos, chorámos desilusões no ombro um do outro, trouxe-lhe areia, água do mar e amigos quando a hepatite o prendeu em casa e ele contou-me a vida da rua quando a febre reumática me arrastou pra cama.
Foi com ele que os meus pais me deixaram sair à noite as primeiras vezes, juntos fomos aos festivais da cerveja de Silves e aos concertos do Parque das Freiras, foi o DJ que pôs a malta a dançar no velho Charlie Chilly da Aquazul e nas matinés do Ping-Pong, sempre me lembrando quando chegava a hora de recolher.
Vibrou quando me nasceu o primeiro filho. O Chiado ardia na televisão da sala dos meus pais quando bateu na janela e entrou casa adentro, naquele seu jeito meio desajeitado. Tirou o Lopo do berço e aconchegou-o ao peito, falando-lhe baixinho, naquele voz de falsete que lhe era tão característica.
Era Verão. A minha mãe passou a manhã a entrar e a sair. O meu pai estava triste e mudo. O almoço ficou na mesa. Até no café da esquina reinava o silêncio. Estava calor. Muito calor. Nunca lembrei quem trouxe a má nova. Parecia um eco. O Paulo morreu num acidente, ...dente, ...dente...
Já não fujo dos pais do Paulo nem finjo que não tenho saudades, faço é sempre de conta que foi de viagem e um dia destes ainda aparece por aí.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Assomada no corazon
As cantorias, a jogatana de bola e as corridas de bicicleta iluminam de riso e alegria a Outurela inteira, num mar de criançada desocupada e com sede de muito brincar.
Estão a chegar as tardes de mergulhos nas piscinas municipais, o acampamento sonhado no Parque de Monsanto, as mangueiradas matinais pelos amigos bombeiros, os geladinhos de saco, o arraial da ludoteca, ... Com o Setembro vem o "Verão no Parque" e voltam os ateliers de tanta coisa gira de aprender a ser artista de verdade, a música que põe velhos e novos a gingar, os contadores e a magia das palavras à volta da fogueira, os malabares endiabrados, os grafitis, os raps e mais as nossas batucadeiras num finançon d'arrepio.
Acabada a festa arruma-se a tralha, forram-se os livros, leva-se a carrinha à revisão, copiam-se os horários das escolas e preparam-se as bolas e os equipamentos para a nova etapa.
E recomeçam as aulas, os casacos, as explicações, os treinos, os ensaios da dança e do teatro, as queixas dos professores, os jogos ao fim-de-semana, o canseira da adolescência, o gozo dos "contos e partes" delas todas, as idas e as vindas, o prazer duma fartura cheia de açúcar e canela na Festa de Nha Santa Catarina ou dum almoço de panela de mãe numa qualquer área de serviço Portugal fora.
E mais a parte chata dos relatórios, dos planos, das contas que têm que bater sempre certas, dos projectos com data para entregar, das reuniões que parece nunca são demais e do tempo e do dinheiro que sempre podiam crescer um poucochinho.
Quantas vezes pensamos e dizemos que deviamos ganhar juízo e ter vida de gente. Vida normal de mães de família com casa para tratar, emprego para cumprir e filhos para criar. Fazer lista de compras, ver as notícias na fofura do sofá, fazer exercício, viver numa casa arrumada, comer e deitar a horas decentes.
Mas sabemos bem que este é o sal das nossas vidas, que cada actividade é por nós intensamente vivida, que cada rasteira que a vida lhes prega é para nós novo desafio, que cada pequena conquista é sempre uma grande vitória e que cada um deles tem um lugar cativo nos nossos corações.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
? ? ? ?
Tenho sede de vida. De afago. De calor. De emoção. De partilha.
Não sei calar. Nem esconder. Nem fingir que concordo. Faço lume com pouco fogo. E falo alto. E esbracejo. E choro. E riu. Não sou conveniente. Nem políticamente correcta. Acredito. Entrego-me. Exijo. Partilho.
Tenho pressa. Impacienta-me a inércia. Irrita-me a espera.
Quero ir ou fujo do ficar?
domingo, 15 de junho de 2008
Amar-me?
Um dia destes, por aí, alguém olhou-me nos olhos e me bradou num repente:
- És o verbo ir!
E foi.
Nunca tinha pensado nisso. Mas sim.
Estou sempre a começar. A aprender. A querer conhecer e descobrir.
A encontrar. A desejar. Numa pressa que nem eu sei porque.
Como se o mundo terminasse amanhã. E não termina?
Perco-me de mim. De cansaço. De exaustão.
A culpa carrega-me a consciência se me dou.
E fujo para não a ouvir. Para não escutar a sede de mim.
Na pressa do ir deixo escapar um grito rouco, que abafo.
Quero querer-me. Mas acho tenho medo. De mim?
quarta-feira, 16 de abril de 2008
- Diferentes ? - Não, obrigado!
quarta-feira, 12 de março de 2008
A Primavera chegou!
quarta-feira, 5 de março de 2008
Melhoras Sóninha!!!
Neuza, em "Nta amabo" só pra ti.
Criança éducada
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Um ano
Durante estes meses escutei-te nos meus sonhos. Soletrando ditongos, tecendo longos panos coloridos, trauteando aquelas tuas músicas sem palavras de verdade e que falam a verdade toda.
Era quase Fevereiro. Encaixotámos vidas naquela última tarde. Nem eu nem tu queriamos acreditar que o dia tinha chegado. A viagem do bairro ao aeroporto entre lágrimas e abraços, no meio duma multidão de carros, buzinadelas e mensagens de quem bem nos quer.
Deste-me o livro a guardar e foste ali. Sabiamos ambas que era a deixa da despedida. Depois, fiquei lá, bebendo cafés e esperando, quase querendo acreditar que podias não ir. Voltei para casa devagar, voando contigo lá em cima, a caminho do sonho feito real.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Coisas boas I
Faz anos, acho quase nem Fatuxa tinha nascido, estava eu acabadinha de formar e de ser mãe e fui ensinar homens feitos, nas artes de bem vender refrigerantes e outros que tais.
Era ali perto da Damaia, logo depois da última paragem do 46, depois de atravessar um bairro abarracado que hoje bem sei nomear. As aulas começavam às 18:30h, assim noitinha que o Outono por lá já andava. Saía do autocarro e ia caminhando, devagar, num misto de curiosidade e de receio do desconhecido. Por entre ruas estreitas e esgotos a céu aberto brincavam crianças. Às vezes seguiam-me . Enrolavam-se nos meus longos vestidos floridos e brincavam com o meu par de tranças. Corria e cantava com elas, como que a afugentar o medo. Com o tempo fui ganhando confiança, retribuindo as boas tardes que ia recebendo e fazendo paragens para dois dedos de conversa. Foi assim que conheci o Velho Serafim.
Sempre sentava na soleira da última porta da terceira rua. Talhando madeira. Dessas figuras que depois se vendem por aí e regateiam por tuta e meia. Eram bonitos os personagens que lhe saiam das mãos. Muito magras e enrugadas. Guardo um pastor na ponta dum pau que me prendeu o cabelo anos a fio. Comia xerém e funge porque os dentes, só dois, não chegavam pra mais. O sorriso iluminavam-lhe o rosto quando boas eram as notícias do jornal que lhe lia e soltava gargalhadas por me ver enrolar cigarros à maneira de pobre, dizia ele.
Fumava cachimbo, cheirava rapé e chupava mucua. Durante algum tempo resisti a experimentar o fruto. Achava podia ser alguma droga esquisita. Hoje, quando sinto o sabor ácido do filho de imbondeiro, entrefecho os olhos para melhor ouvir o Velho Serafim dizendo que mucua alivia tristeza e leva choro de olho sadio pra mar salgado.