sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As primas Marias

Tem dias assim. nostalgia pura.

Adormeço e acordo ao som daquele mar forte de sul que entra pelo molhe da Solaria, põe as gaivotas loucas, os pescadores em terra e me deixa de alma lavada;

Por caminhos e carreiros, entre urze, estevas e giestas, lá fomos, de prima em prima, revivendo velhas estórias, cheiros, caras e sabores. Todas nos setenta, todas viúvas, todas sós e cheias de vida em ermos perdidos na serra algarvia. Sob a nevrinha colhemos laranjas, poejos e rosmaninho. Ao calor da braseira falaram da grandeza dos martuzes com mel no combate à tosse, da água que se deve beber morna para evitar males na veia d´urina, dos filhos, dos netos e dos bisnetos que as visitam mas que não desejam nas lidas da terra nem dos cortiços, querem-nos lá em baixo, no Algarve, onde há hoteis, turistas, trabalho limpo , não se acorda ao nascer do sol nem se recolhe ao piar do mocho.

São tão bonitas as primas. Morenas e enrugadas por décadas de sol, despachadas e trabalhadeiras, cabelos alvos cobertos por lenço negro e chapéu de palha debruado a fita escura, de olhos muito brilhantes e sorriso aberto. Sábias e adivinhadoras de sonhos. Abraçam com fervor e cantam com doçura.

Encantam-me sempre. Comovem-me também.

Isabel volta depressa. vamos até lá cima,aos Gregórios, que a prima Maria José sabe dum chá de alecrim que afoga até as tristezas desenganadas.

quem ???

Mais ou menos a partir dos 25, 26 anos, às vezes mais uns quantos, quase deixam de nos perguntar a idade. melhor assim, faz conta não se vê bem o tempo a correr e toca de lhe fugir atrás não vá ele ir longe de mais. com o passar dos anos e o crescer da família somos assim mais ou menos agregados ao alguém que dá mais jeito nesta ou naquela situação.

Começamos por ser o marido ou a mulher de, que digo eu por minha conta, ao fim de vinte e tal anos de comunhão continua a soar-me estranho. nas escolas e nos consultórios passam a tratar-nos por "mãe" ou "pai" como se fizessem parte do agregado e para todos os miúdos e adolescentes da escola, do clube, dos escuteiros, da rua e mais aqueles que nem sabemos donde nem quem são seremos eternamente a mãe ou o pai do ou da consoante o género.

Daí a minha estranheza a tanta questão acerca da minha pessoa em menos de vinte e quatro horas. perguntaram nome, morada, telefone, profissão, data e local de nascimento e idade também não fosse ter aldrabado e tirado uns poucos de anos, estado cívil, nome do cônjuge - que eles sempre dizem cônjugue - e se era pai dos filhos e se estes eram maiores, menores e não perguntaram o sexo nem a cor dos olhos e do cabelo, o peso, a altura e o nível de colesterol porque não se devem ter lembrado. Curioso é que em nenhuma altura me foram solicitados os documentos do veículo, comprovativo em como eu era a proprietária ou a minha própria carta de condução. Eu acho que não é crime ter apresentado queixa dos presumíveis vândalos que me assaltaram o carro. ou será que é?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

cinzento escuro

afinal a minha cidade já não é aquele lugar aprazível e pacato que sempre espero encontrar no inverno. ao sol posto as ruas ficam desertas, silenciosas e tristes como se esperassem a morte. entre postigos e portadas já só espreitam avós, assim meio a medo, na penumbra da viuvez que deixou de ser alheia. e eu que me sentia segura. aqui. em qualquer canto e em qualquer duna. em lagos. na minha cidade. enraiveci de espanto. de surpresa. acho que de desilusão até. desembaciei. depois do assalto de hoje fugi pró mar e contei-lhe das muitas pedras que faltam nas calçadas do nosso burgo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

à noitinha no casino

Que cena! Eu não sabia, mas os casinos são mesmo como nos filmes, assim tipo entras na cena e já lá estás, parece nem és bem de verdade que és praticamente assim uma espécie de sombra ou de olho atrás da câmara que anda por ali a topar a coisa como quem não quer nada. E os mânfios e as mânfias com ar muito esgazeado e olhos completamente vidrados em rectângulos pejados de desenhos coloridos mais ou menos repetidos, devorando cigarros e mais cigarros, amontoando beatas em cinzeiros laterais género aquelas sarjetas gradeadas com ratazanas à espreita.
Que cena! Seres femininos de ar angelical mas certamente aparentados de demónio circulam, deslizando sorrisos e bandejas repletas de copos meio vazios ou meio cheios de ouro ou talvez urina made in Scotland. As luzes refletem no chão o tecto de estrelas e ilusões que faz acreditar na impossível probabilidade de ter chegado o tal dia, na tal máquina, àquela hora, com a mão esquerda fechada em figa, a boca entreaberta em reza e um minuto e meio sem respirar. Afinal inspirou cedo ou tarde demais, a mão não estava suficientemente apertada contra o polegar, a reza não era bem aquela, o dia era de ano bissexto e o relógio devia ter a pilha fraca. Azares. Novos dias virão. Antes não.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

sempre a rolar


Às sextas, depois das aulas acabarem, o Luís e o Mariano inventaram o Clube das Engenhocas da Escola de São Bruno. A rapaziado foi-se chegando e, pouco a pouco, foram dando à luz uns poucos de carrinhos de rolamentos, mesmo daqueles em que todos nós já descemos as rampas do nosso bairro, esborrachámos dedos e rasgámos as calças que a nossa mãe nos tinha dito para não vestir porque eram quase novas e podia haver um acidente, daqueles que acontecem mesmo sem querer.

Dois domingos atrás fomos experimentar os carrinhos rampa abaixo, no lugar onde iria acontecer o Grande Prémio Esferacar de Barcarena, assim tipo aprender a andar e treinos de reconhecimento de pista. Encantaram com uma manhã inteira de desce a rolar sobe a puxar, come bolacha, trinca maçã, piropo pra cá, estória pra lá. Nem o frio nem a humidade nem tão pouco o acordar assim quase de madrugada em dia de dormir até meio-dia, demoveram estes aprendizes de campeões.

Neste sábado, pilotos de Caxias e da Outurela, partilhando viaturas, capacetes, luvas, lanches, ajudas e amigos, fizeram-se ao alcatrão. O Adilson soprou-me no ouvido que tinha o sonho de ter um carrinho daqueles, assim só dele para brincar quando tivesse vontade. Parece o vento ouviu, contou à brisa e ela bisbilhotou a gente amiga. Quando os deixei na Outurela, junto ao Clube Jovem, o Adilson subiu a rua, inchado de orgulho, puxando a viatura pela cordinha e prometendo à passagem que ia deixar todos andarem, só em ruas sem carros a circular nem estacionados, porque era esse o acordo que tinhamos estabelecido.
Foi tããão fixe!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Peripateticando

O sol voltou e eu, a bem dizer, renovei.

Não há janelas abertas nem passarinhos a cantar nos beirais que nos alegrem quando lá ao fundo a serra espreita, assim como que a piscar o olho espicaçando-nos para umas corridas com vista pró mar do Guincho.

Esta tarde fomos brincar aos peripatéticos. Peri quê? Andar por aí, caminhando, à conversa e ir aprendendo uns com os outros. Agora sim, toda a gente percebeu o que é uma raiz fasciculada tuberculosa, um caulo cilíndrico com medula, a diferença entre simetria e assimetria, entre estame e carpelo e até quando começou e acabou a primeira república. Aproveitámos e enquanto subíamos direitos à Peninha fomos treinando multiplicações com muitos e poucos zeros antes, depois e até sem vírgulas.

Sentimos o frio muito frio que o vento trazia empoleirados numas pedras gigantes que apostámos serem meteoritos caídos do céu, ouvimos o barulho do silêncio e o resmalhar das folhas, respirámos devagarinho e com muita atenção para treinar o portar bem na sala de aula, brindámos às negativas a descer e às positivas a subir com copos muito pequeninos a derramar de icetea, corremos descida abaixo e de calhau em calhau, descobrimos bué de verdes diferentes uns dos outros e colhemos uns ramos cheios de bolinhas amarelas para trazer para as mães. Descobrimos depois que as flores de acácia além de lindas também são muito malcheirosas ...

Na volta passámos no Guincho e despedimo-nos do sol, muito cor-de-laranja quase vermelho a afundar-se no mar lá tão ao fundo que já devia ser horizonte. Assim muito rápido. Estava ali e pronto passamos o forte e já não estava, parece já devia estar a acordar na China com despertadores a tocar e miúdos a irem para a escola para aprenderem a história de lá, língua chinesa e ciências e matemática que devem ser iguais mais ou menos em todo o lado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

devaneios

apetece-me um dia inteiro sem chover. já nem peço setembro em fevereiro nem primavera no entrudo. era só mesmo assim um dia inteirinho sem chuva. até podia fazer frio, que o sol brilhando sempre aquecia um poucochinho. podia até roubar-me um meio dia acrescentado e descer para espreitar mar a sério. com cheiro e alma. aproveitava e do outro meio dia já ratado fazia aquelas horinhas de formação prometidas para sines que é logo ali à banda de cima de s. torpes, seguindo a estrada à babuja da areia desde a entrada da barca. ou ao contrário. e depois, como era de caminho até parecia vinha a calhar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

do Lat. futuru, que há de ser

transgredir
do Lat. transgredere por transgredi
ir além do que é permitido;

infringir;
postergar;
deixar de cumprir lei, preceito, dever ou ordem.

amar
do Lat. amarev. tr.,
ter amor a;
gostar muito de;
desejar;
escolher;
apreciar;
preferir;

viver

do Lat. vita
ter vida;
existir;
durar;
habitar, residir;
alimentar-se;
nutrir-se;
comportar-se;
ter relação com;

felicidade

do Lat. felicitates. f.,
ventura;
bem-estar;
contentamento;
bom resultado,
bom êxito;
qualidade ou estado de quem é feliz.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

chegou carta, mucua também

Nha Nézinha gostava de sentar junto do povo jovem e de contar parte. Parte lá da terra do lá longe, parte de bandido fugido de bófia e caçado por mais bandido que a si, parte de quando Zé Mindelo a tinha ido pedir ao pai e com o nervo bebeu grogue demais e chorou de grosso e muita parte com filhinhos pequenos presos à saia e à chupa de mamã.

Gostava de agradar Fatuxa, filha codé, única em casa cuidando. Embarrigara de Fatuxa já mulher partida pra velha e tivera choro grande de desgosto. Vergonha de mulher parida avó de netos homens feitos.

Nasceu de olho aberto e goela escancarada a cachopa. Havera de ser mulher pra vida dissera doutora que a trouxe pro mundo. E era. Professora diplomada, dessas de ensinar a ler e a escrever criança pequena e grandes também.

Até mamã já assinava o nome e lia cartas chegadas do lá longe. Mas o estado nunca mais mandava postal dizendo que tinha escola pra ela ensinar meninos. Então ela ia no shopping e ganhava arrumando tabuleiro de comida. Depois voltava e nha Nézinha lá estava, sentada, contando parte. Fatuxa ia só num instante comer bucha e trazer viola. Encostava na perna da mãe e tocava as mornas mais choradas do bairro.

Um dia, nha Nézinha não acordou mais. Fatuxa fez a trouxa, pegou na viola e foi pro lá longe. Era quase Fevereiro. Lá no Namibe ela foi ensinar. E contar bué parte também.

Continuo a escutá-la nos meus sonhos. Soletrando ditongos, tecendo longos panos coloridos, trauteando aquelas suas músicas sem palavras de verdade e que falam a verdade toda. Fatuxa não voltou porque o caminho do ser feliz nela se encantou e sua lhe chamou.

Passaram dois anos, mais dia menos dia.

sábado, 31 de janeiro de 2009

tem dias ...



o mar enfureceu. o céu também.
fosse a minha loucura maior iria tempestade dentro, deixando-me salgar, molhar, oscilando ao sabor da nortada.

sei teria voltado mais leve e de alma renovada.

constipada, porém.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Elas

De vez em quando roubo uns minutos à cama e passo mais do que a horinha do costume no ginásio. Dou-me a pequenos luxos como fazer uma aula de hidroginástica ou de pilatos, passar de novo pela minha máquina preferida e no final esparramar-me no belo do banho turco e deixar-me ir atrás dos vapores. Pra lá da porta embaciada está um mundo de mulheres preocupado com cremes, tintas para o cabelo, vernizes, leggins, tops, cabeleireiros, esteticistas, manicuras, quilos a mais e mamas a menos. Entressonhos vou ouvindo o que desconfio seja sofrimento feminino. O cabelo que não estica como devia, o difusor do secador que empenou, o contorno de olhos que partiu o bico, a unha de gel que descolou antes do esperado e mais a pasmaceira que é passar o dia entre massagens que já não resultam e o escritório onde as colegas são todas umas cabras invejosas. Sinto-me assim como que ave rara e fico sem saber se devo ou não sair de dentro da densa nuvem de água em puro estado gasoso.

É que elas podem perceber que o meu cabelo é cortado à máquina, pente quatro fachavor e ver nas minhas unhas os carrinhos de rolamentos que hei-de aprender a construir.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Om mani pemé hung hri

Ao passar por uma sanzala amiga (sanzalando.blogspot.com) despertei uma mão cheia de coisas boas, que, pela pressa da vida, têm estado engavetadas, uma saudade de mãos quentes e abraços de paz, sorridentes, ao ritmo de brisas mansas e melodias suaves.

Acabada de chegar à cidade grande e desconhecida, procurando instalar-me e adaptar-me à nova vida de estudante universitária em auto gestão, senti-me em casa naquela casa que logo vi não ser bem um restaurante, apesar de se comer bem e adequado à fraca bolsa da época.

Serviam-nos a "malga da simplicidade" que consistia em sopa, tarte de vegetais com salada e uma tigela de frutas frescas e secas com iogurte, temperada com a maior simpatia e uma calma que só ali se respirava. Chamavam-lhe o "Terraço do Finisterra" e era um segundo andar da Rua do Salitre com vista para o Jardim Botânico da Faculdade de Ciências.

Quando quase no final do curso soube que ia ser mãe prepararam-me água ferrosa e os pratos mais completos e coloridos, para que ambos crescessemos em vida e saúde, ensinaram-me a melhor posição para dormirmos em paz e fizemos ioga diariamente. Quando o Lopo nasceu, apareceram na maternidade com uma maravilhosa e imensa tarte de chocolate e castanhas para a equipa de serviço. Festejavam o regresso do Lopo.

Como verdadeira comunidade que são, a sua vida é onde fazem falta. Partiram e estão em França, na Bélgica, nalgum mosteiro algures por aí, trabalhando para que numa vida próxima sejam ainda melhores pessoas. Deixaram-me valores eternos e um coração maior.

Hoje, depois de passar pela sanzala, desenrolei o rolinho que recebi na última passagem do Dalai Lama por Lisboa. Continuava por abrir. Estava escrito "Om mani pemé hung hri"/"Aconteça o que acontecer à tua volta, nunca desistas".

O restaurante ainda existe.
Chama-se "Tibetanos" (www.tibetanos.com). Fica à mesma no 117 da rua do salitre, agora mais sofisticado mas igualmente acolhedor.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Senhor Ribeiro da Biblioteca

Dias, semanas, meses a fio esperei o Senhor Ribeiro a partir das cinco e meio, sentada nas escadas de madeira do prédio que, naquele tempo era o do turismo, da biblioteca e, acho que também de qualquer coisa de saúde pública, tipo agente sanitário, ali mesmo em frente às laranjeiras do Abrigo e a seguir à Palinova. Todos os dias utéis requisitava os três livros possiveis e lia-os de rajada, como se cada um fosse o último, de olho arregalado e caminho directo aos sonhos.

Com o passar do tempo as visitas deixaram de ser diárias porque o deleite da leitura assim o obrigava mas, dizia o Sr Ribeiro, continuava a ser a sua melhor freguesa e quem quase como ele conhecia de cor e salteado cada uma das prateleiras. Acho ainda posso pegar num lápis e num papel e arquitectar cada assunto e muitos autores, estante a estante, daquele primeiro andar de parapeitos floridos.

E o bom que era contar e ouvir do Senhor Ribeiro um mundo inteiro de fantasia roubado às muitas páginas folheadas ou acabado de sair da nossa imaginação, enquanto eu copiava parágrafos mais especiais e ele tratava da saúde a lombadas defeitas ou ajudava na consulta de alguma obra.

Na entrada, ao lado da porta verde, havia uma placa dourada onde estava escrito: Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Fixa nº 6, de segunda a sexta, das 18h às 20h. Num domingo de 1974 , ao lusco fusco, fomos lá, à sucapa e colámos um cartaz a dizer "Biblioteca do Senhor Ribeiro" numa atitude PREC'iana de entregar terra a quem a trabalha.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Nha Jula

Numa das muitas vezes que fui ao aeroporto esperar alguém os nossos olhares cruzaram-se, meio sorridentes meio cumplices, como se já noutras paragens se tivessem encontrado. O voo atrasou como quase sempre atrasam os que de lá vêm e entre idas e vindas os nossos olhos brilhavam de uma para a outra.

Quando já escutava as aventuras e desventuras dum amigo em terra distante, li-lhe medo de relance, na mão enrugada que me acenava despedida. Estendi-lhe a minha, abrimos os braços e apertámo-nos como avó e neta a quem a saudade aperta. Só então percebemos, ela incluida, que Nha Jula estava há várias horas no átrio do aeroporto da Portela, aguardando uma filha que ignorava a sua vinda, porque, na ânsia do partir se esquecera de a avisar.

Nha Jula tem a sapiência de quem já viveu 87 anos, apresenta porte altivo nas suas sete saias engomadas e cabeça coberta pelo tradicional lenço branco, um par de olhos azuis a se cobrirem de névoa e uma inocência bonita de menina travessa que praticamente voa em cadeira de rodas. Ela sabia que a filha se chamava Amélia e que morava em Lisboa, numa casa amarela de onde se via o mar longe, longe, quase até Cabo Verde. Recordava-nos a todo o instante que a sua maleta não tinha nome porque não o sabia escrever mas estava marcada pelo cinto xadrezado da sua segunda saia de baixo.

De balcão em balcão, de corredor em corredor, telefonando, perguntando, melgando uns e outros, cá e lá, Nha Jula cumpriu o desejado: seis meses de belas férias com a família espalhada por todo o Portugal, Feira do Relógio, Colombo e Fátima incluidos.

Um dia destes ela vai voltar e trazer de novo a maleta cheia de garrafas de manteiga(!), feijão congo, atum, milho, linguiça e bolacha capitão. Vamos a ver é se não se esquece de avisar a malta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ao sabor do Arade

Parece não pisava Portimão desde os tempos do liceu, da Ginga e das idas ao mercado nas madrugadas de sábado. Depois foram só fugidas aos hipermercados e idas ao hospital todas as muitas vezes que não queria terem existido.
Chegar de comboio e passear-me lentamente junto ao rio foi agradável novidade. Embalar-me para enfrentar o "parto" difícil que estava pra vir. Ainda não foi desta que "nasceu".
De despedida vou cobrar-me um fumegante chá na esplanada da Casa Inglesa, na esperança de que o último autocarro para a capital ainda esteja por partir.

Isabel, continuamos à tua espera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

às terças

A terça-feira é aquele dia cheio de começar muito cedo e acabar quando já é quase quarta. Hoje foi maior ainda. Foi dia de consulta da Mina no anjo da guarda dos joelhos das nossas meninas, o amigo Dr Pereira de Castro, que sempre nos recebe com a maior simpatia e o melhor humor, mesmo nas horas mais difíceis. Foi dia de treino das nossas "pequenotas" iniciadas na selecção. Já vão em 10. Foi dia de muito frio e granizo forte de deixar tudo branco e ficarmos todas encantadas, de boca escancarada a dizer "tão giro!".

Quando tudo acaba respiro fundo numa qualquer área de serviço, leio meia dúzia de páginas das revistas cor-de-rosa e as gordas dos jornais, bebo um café forte e amargo, sinto uma vontade imensa de acender aquele cigarro a que continuo a resistir e vou aterrando lentamente no ninho.

Tanta sede daqueles abraços que ainda estão por dar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Coisas boas

Esta noite, depois do jantar, passeámos a pé, aqui por perto de casa, conversando, chapinhando na beira das poças, sentindo os cheiros húmidos da terra e da relva recém cortada e espreitando as estrelas. Decidimos falar só de coisas boas. Daquelas que nos vão fazer sorrir e sonhar para sempre. Lembrei o cheiro a nívea e o calor do corpo dos meus pais quando na Praia dos Estudantes, voltava do mar e os encontrava estendidos no quente da areia, lembrei o parir de cada um deles três e a descoberta da maternidade no criar de cada um, lembraram as noites ao relento por esses montes fora em acampamentos de escuteiros, a alegria da entrada para a universidade do mano grande, o primeiro dia de escola, as férias de Verão na casa da avó Maria. Lembrámos os muitos abraços, beijos, cumplicidades, brincadeiras e gargalhadas que nos vão unir para sempre, em cada dia das nossas quatro vidas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

phoenix seja!


tenho ouvido dizer que quem morre de amor vai direitinho para o céu.
e o amor, quando morre vai para onde?
e renasce?

sábado, 17 de janeiro de 2009

segredos...

quando damos um segredo a guardar dizem ficamos mais leves, assim quase como quando voltamos das compras e alguém nos ajuda a carregar os sacos. às vezes eles trazem segredos para guardar. escritos em letra miudinha, num papel dobrado e redobrado até ficar só um rolinho que entupiria qualquer fechadura de portão de escola. guardamo-los sempre numa caixa de madeira escura trancada com dois cadeados cujas chaves são escondidas em lugares diferentes. e eu, onde guardo os meus segredos? será que fujo deles? acho é mais isso que fazem as pessoas grandes...

triste, não é?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

kota???

- A minha setôra de física foi ter bebé e veiu uma setôra nova.
- E que tal, é simpática?
- É assim mais ou menos. Fala baixinho e é assim, já um bocado velha.
- Velha?
- É. Acho que deve ter praí quase uns quarenta anos...
- O quê?!!!
- Quarenta ou trinta oito, assim mais ou menos.
- E isso é velha?
- É um bocado, não achas?
- Bruno, tás-me a dizer que eu sou velha?
- Tu não, ela é que é. Tu nem deves ter 33.
- Mais dez.
- Népes. Achas?
- Não acho, tenho a certeza. 1965, grande ano!
- Ah, mas é diferente. Ela é assim tipo avó nova e tu és tipo mana mais velha.

E mais, tu fazes anos no fim do ano. Aposto que ela faz logo em Janeiro...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

mar de janeiro



às terças

Terça-feira é dia graaande. O mais grande da semana inteira. O mais completo também. Diversidade. De gente. De lugares. De conversas. De sorrisos. De abraços até. Terça-feira é manhã dos meus gémeos sabichões que querem ser grandes, ricos e famosos como o avô. Da estatística da Isilda tratamos entre canecas de café, não vá ela adormecer entre o turno de telefonista, a casa da patroa e o terceiro ano da faculdade privada. Até às 3 e quase meia dou rédea solta e deixo-me sonhar, por aí. Sento-me à mesa com as ervilhas da tarde. Cabeças pequeninas preguiçosas de pensar. Pensamos juntos, brincando de aprender coisas de gente média que aspira a gente esperta. E já é hora de treinos. Deles e delas. A carrinha espera por mim e elas esperam-me nos lugares do costume. Vão entrando, rindo, contando parte e comédia dum alguém qualquer que já nem sabem quem . Hoje falámos de amores. Dos primeiros, dos segundos e dos outros todos. Do que levam e do que deixam. Até ouvimos canções de amor, daquelas que fazem sonhar. Na ida derretemo-nos com a Neusa e mais o seu "Konfiá na bô" e na volta dei-lhes a ouvir as francesices da minha adolescência. No regresso, pelo retrovisor, as ondas espreitavam, umas atrás das outras, como se tivessem novas para me contar e, do lado de lá, já a caminho do Cacém, a lua, quase cheia, brincava entre montes, escondendo-se e aparecendo onde eu mais a esperava. Bela vida.
 
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