quinta-feira, 3 de julho de 2008

Paulinho Pargana

Crescemos quase juntos, ruas chegadinhas, a escola velha, o cinema na rua de lá, o Abrigo mais abaixo e a Meia-praia à distância dumas poucas de remadelas na barcaça do Armindo.

Brigamos e fizemos as pazes vezes sem conta, ganhámos e perdemos contratos Páscoa sim Páscoa não, jogámos berlindes e ao mata, às estátuas, ao pisa e à verdade e consequência. Aprendi a tocar na guitarra que os pais lhe trouxeram de Espanha e começou a gostar de ler com a "Crónica dos bons malandros" que recebi de presente. Trocámos almanaques, cromos e as confidências dos primeiros amores, ouvimos os discos e as cassettes todas da moda e até os pirosos, chorámos desilusões no ombro um do outro, trouxe-lhe areia, água do mar e amigos quando a hepatite o prendeu em casa e ele contou-me a vida da rua quando a febre reumática me arrastou pra cama.

Foi com ele que os meus pais me deixaram sair à noite as primeiras vezes, juntos fomos aos festivais da cerveja de Silves e aos concertos do Parque das Freiras, foi o DJ que pôs a malta a dançar no velho Charlie Chilly da Aquazul e nas matinés do Ping-Pong, sempre me lembrando quando chegava a hora de recolher.

Vibrou quando me nasceu o primeiro filho. O Chiado ardia na televisão da sala dos meus pais quando bateu na janela e entrou casa adentro, naquele seu jeito meio desajeitado. Tirou o Lopo do berço e aconchegou-o ao peito, falando-lhe baixinho, naquele voz de falsete que lhe era tão característica.

Era Verão. A minha mãe passou a manhã a entrar e a sair. O meu pai estava triste e mudo. O almoço ficou na mesa. Até no café da esquina reinava o silêncio. Estava calor. Muito calor. Nunca lembrei quem trouxe a má nova. Parecia um eco. O Paulo morreu num acidente, ...dente, ...dente...

Enraiveci de dôr. Nunca mais consegui entrar no Vitaminas. Nem no Zapata. Demorei anos até voltar a ouvir Carlos Santana, a jogar badmington e a passar no lado dele da rua, onde há meia dúzia de dias nos tinhamos encontrado entre abraços e gargalhadas.

Já não fujo dos pais do Paulo nem finjo que não tenho saudades, faço é sempre de conta que foi de viagem e um dia destes ainda aparece por aí.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Assomada no corazon

O ano lectivo e a época desportiva estão assim a modos que de abalada. O cansaço impera. Em nós e neles. Verdade verdadinha não é bem assim. Eles estão frescos e desejosos de começar as actividades de férias e as outras que hão-de vir a seguir, logo, logo, mal chegue o novo ano lectivo e a nova época desportiva.

As cantorias, a jogatana de bola e as corridas de bicicleta iluminam de riso e alegria a Outurela inteira, num mar de criançada desocupada e com sede de muito brincar.

Estão a chegar as tardes de mergulhos nas piscinas municipais, o acampamento sonhado no Parque de Monsanto, as mangueiradas matinais pelos amigos bombeiros, os geladinhos de saco, o arraial da ludoteca, ... Com o Setembro vem o "Verão no Parque" e voltam os ateliers de tanta coisa gira de aprender a ser artista de verdade, a música que põe velhos e novos a gingar, os contadores e a magia das palavras à volta da fogueira, os malabares endiabrados, os grafitis, os raps e mais as nossas batucadeiras num finançon d'arrepio.

Acabada a festa arruma-se a tralha, forram-se os livros, leva-se a carrinha à revisão, copiam-se os horários das escolas e preparam-se as bolas e os equipamentos para a nova etapa.

E recomeçam as aulas, os casacos, as explicações, os treinos, os ensaios da dança e do teatro, as queixas dos professores, os jogos ao fim-de-semana, o canseira da adolescência, o gozo dos "contos e partes" delas todas, as idas e as vindas, o prazer duma fartura cheia de açúcar e canela na Festa de Nha Santa Catarina ou dum almoço de panela de mãe numa qualquer área de serviço Portugal fora.

E mais a parte chata dos relatórios, dos planos, das contas que têm que bater sempre certas, dos projectos com data para entregar, das reuniões que parece nunca são demais e do tempo e do dinheiro que sempre podiam crescer um poucochinho.

Quantas vezes pensamos e dizemos que deviamos ganhar juízo e ter vida de gente. Vida normal de mães de família com casa para tratar, emprego para cumprir e filhos para criar. Fazer lista de compras, ver as notícias na fofura do sofá, fazer exercício, viver numa casa arrumada, comer e deitar a horas decentes.

Mas sabemos bem que este é o sal das nossas vidas, que cada actividade é por nós intensamente vivida, que cada rasteira que a vida lhes prega é para nós novo desafio, que cada pequena conquista é sempre uma grande vitória e que cada um deles tem um lugar cativo nos nossos corações.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

? ? ? ?



Tenho sede de vida. De afago. De calor. De emoção. De partilha.

Não sei calar. Nem esconder. Nem fingir que concordo. Faço lume com pouco fogo. E falo alto. E esbracejo. E choro. E riu. Não sou conveniente. Nem políticamente correcta. Acredito. Entrego-me. Exijo. Partilho.

Tenho pressa. Impacienta-me a inércia. Irrita-me a espera.

Quero ir ou fujo do ficar?

domingo, 15 de junho de 2008

Amar-me?



Um dia destes, por aí, alguém olhou-me nos olhos e me bradou num repente:
- És o verbo ir!
E foi.
Nunca tinha pensado nisso. Mas sim.
Estou sempre a começar. A aprender. A querer conhecer e descobrir.
A encontrar. A desejar. Numa pressa que nem eu sei porque.
Como se o mundo terminasse amanhã. E não termina?
Perco-me de mim. De cansaço. De exaustão.
A culpa carrega-me a consciência se me dou.
E fujo para não a ouvir. Para não escutar a sede de mim.
Na pressa do ir deixo escapar um grito rouco, que abafo.
Quero querer-me. Mas acho tenho medo. De mim?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

- Diferentes ? - Não, obrigado!

Quando o Edmar e o Moite arribaram a Lagos, há já uma pipa de anos, foram um sucesso, quer no campo do Esperança, com a bola no pé quer nas ruas da cidade, onde a maior parte das pessoas nunca tinha visto um preto, uma pessoa de côr como muitos preferem ainda dizer.

Nós, os miúdos faziamos figas para dar sorte, imagem transmitida pelos bonequinhos de barro, pintados de preto e com pilinha vermelha, que as mães compravam na Feira Franca e usavam na carteira como talismã.

Quando estava no final da primária chegaram à minha e a todas as outras turmas muitos meninos vindos das antigas colónias, principalmente de Angola e a surpresa da diferença não passou dos primeiros dias. Com o tempo, os hábitos e as falas foram-se misturando e tal como o João e o Óscar passaram a saber conviver com as invernias também nós adoptámos o "tchau" e o "frango de churrasco", entre tanto.

Cresci sentindo que as diferenças jamais poderiam separarar pessoas e principalmente desvalorizá-las ou torná-las mais importantes. Ouvia falar em segregação e racismo, sabia ser verdade mas acho nem queria acreditar.

Quando no calor dum jogo de andebol alguém do público manda as nossas miúdas "Irem jogar pra terra delas" os punhos cerram e apetece sempre lembrar que a terra delas é esta mesmo, aqui nasceram e nunca conheceram outra. Mas queria acreditar que era o fogo do jogo, a raiva do perder, independentemente da côr, da estatura ou da nacionalidade da equipa adversária.

Os meus três filhos têm crescido entre culturas, partilhando canjas e cachupas, sonhos e brincadeiras, jogando futeboladas e oril com os meninos das várias latitudes que são seus companheiros de escola, de brincadeiras e de vida. O Manel refere vezes sem conta que desde que é preto tem o sonho de ir à Ilha do Fogo, terra da Nha Pépinha, uma velhinha adorável que conta estórias bonitas da terra do lá longe.

Ontem foi dia de luto. Senti a crueza da diferença pela boca de uma jovem. E de mais um. E de outro. E no silêncio de todos os adultos que o consentiram. E da escola que fingiu nem ouvir.

Doeu tanto que parece não vai passar nunca. Toda a noite ecoou o grito de raiva "Cala-te ó preto do caralho, vai aprender a ler, ...". Sei que a violência não leva a lado nenhum, mas aqui, que ninguém me lê, posso escrever bem negro "abençoados os murros que deixaram a cara branca côr de carvão. "


quarta-feira, 12 de março de 2008

A Primavera chegou!

A Primavera já aí está. Por todo o lado. É bonito sim senhor mas também é assim um bocadinho "nhãnhãnhã". Muita florzinha, muito passarito, muito mel e muito amor, calor de manhã, à noite gela que até dói, as dietas e os ginásios em alta e o meu peso a saltar da balança directamente para a consciência.

E se elas todas que até estão benzinho, salvo seja, giraças e na crista da onda passam o santo dia a beber líquidos coloridos e a comer "rações de combate" energéticas e sem calorias, pedalando bikes que as não levam a lugar nenhum e correndo sobre caminhos que rolam, rolam, sempre à mesma velocidade, eu devia, no mínimo, deixar completamente de comer e não permitir que nenhum dos meus membros parasse, seja ele inferior, superior, acho até orelhas incluidas.

Mas depois não resisto ao convívio que a refeição implica, não me vejo a discutir planos de actividades com a São, cada uma na sua bicicleta, falando alto e soltando alguma palavra maior que chocaria, certamente as ilustres e elegantes companheiras de health club. Não dava.

Ou então beber uma litrada de "drenaqualquercoisa" enquanto o belo pão se ia casando com as belas das azeitonas britadas da D. Antónia, ali mesmo à minha frente e o queijinho saloio às tiras fininhas sobre a broa ... Não é compatível.

Eu sei que a minha mãe sempre sonhou ter uma filha a sério, daquelas que crescem e ficam umas senhoras, não dizem disparates, usam sapatos de salto com saia travada, guiam com a janela fechada, pintam as unhas, enfim, umas senhoras. Mas também sei que com o tempo ela se resignou e já nem era bem feliz se eu não fosse tão trapalhona e bem disposta.

Noutro dia, quando o nosso Manel lhe contava: "Sabe avó, os meninos da minha escola que estudam com a mãe dizem que ela não é bem uma pessoa grande". A avó encolheu os ombros, apertou-o e ouvia-a dizer-lhe baixinho ao ouvido: "Olha filho, ainda bem!".




quarta-feira, 5 de março de 2008

Melhoras Sóninha!!!

A nossa Sónia lesionou-se no jogo de 6ªF, 29 de Fevereiro, frente à equipa "Colégio João de Barros".

Mas, mesmo engessada e cheia de dores apoiou e aplaudiu a vitória da nossa Assomada no jogo de sábado e, entre consultas, tem assistido aos treinos.

Hoje vai ser operada no Hospital de São Luís, em Lisboa.

Fica boa depressa Sónia.

Beijos de nós todas.

Neuza, em "Nta amabo" só pra ti.

Criança éducada

O meu Zé está quase nos dezasseis anos. É um dos treze filhos macho nascidos dum casal de são tomenses. Acha que não é muito dado às letras mas faz oitos com os números. "Grandes e piquinotes". Lê bonito. Dá asas e vida às palavras. Escreve como fala. E só fala "bodega". Fala "dáma" e esquece a menina que não é bela mas "tão biuti" que é até "fatela" no mc trabalhar em vez de desfilar. Mas isso é som que sai da boca do Zé porque na expressão, no sorriso, no brilho do olho ele fala poesia e a "dáma" que de lá solta é, no mínimo, a Cinderela.

Nunca falta ao apoio e nunca faz os trabalhos de casa. Não falta porque "o convívio é bom" e não faz os trabalhos porque eram de ontem e o Artur, que é o irmão mais velho, diz que eles têm que estudar pra serem homens de amanhã.

Tem alturas apetece explodir, ralhar e mandar escrever cinquenta vezes as mesmas palavras e resolver umas trinta equações. Mas sempre fraquejo. Eu e as professoras todas, já percebi. Ele sempre tem positiva e sempre passa de ano. A sua explicação para a proeza faz todo o sentido: "As proféssoras gostam de crianças éducadas e eu sou uma criança muito éducada..."

Depois do "convívio" dá-me um abraço demorado e tão apertado que parece até o coração muda de peito.

Quase me apetece desejar que chumbe pra ficar com ele mais um ano.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um ano

Hoje contava madrugar na Portela, esperando-te e mais a todas as estórias que trarias nas palavras e nos silêncios dum ano inteirinho em terras africanas.

Durante estes meses escutei-te nos meus sonhos. Soletrando ditongos, tecendo longos panos coloridos, trauteando aquelas tuas músicas sem palavras de verdade e que falam a verdade toda.

Era quase Fevereiro. Encaixotámos vidas naquela última tarde. Nem eu nem tu queriamos acreditar que o dia tinha chegado. A viagem do bairro ao aeroporto entre lágrimas e abraços, no meio duma multidão de carros, buzinadelas e mensagens de quem bem nos quer.

Deste-me o livro a guardar e foste ali. Sabiamos ambas que era a deixa da despedida. Depois, fiquei lá, bebendo cafés e esperando, quase querendo acreditar que podias não ir. Voltei para casa devagar, voando contigo lá em cima, a caminho do sonho feito real.

Passou um ano. Encontraste o caminho da tua felicidade e também o amor. E o que eu mais quero é que seja para sempre. Um dia destes a malta encontra-se por aí.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Coisas boas I

Chegou carta da Fatuxa, lá do Namibe. Lá dentro trazia o calor das mãos, dos beijos e do riso da codé de Nha Nézinha. Trazia os losangos de doce de mancarra que me fazem perder o juízo e trazia os olhos vivos e o sorriso manso do Velho Serafim numa bolsinha cheia de mucua.

Faz anos, acho quase nem Fatuxa tinha nascido, estava eu acabadinha de formar e de ser mãe e fui ensinar homens feitos, nas artes de bem vender refrigerantes e outros que tais.

Era ali perto da Damaia, logo depois da última paragem do 46, depois de atravessar um bairro abarracado que hoje bem sei nomear. As aulas começavam às 18:30h, assim noitinha que o Outono por lá já andava. Saía do autocarro e ia caminhando, devagar, num misto de curiosidade e de receio do desconhecido. Por entre ruas estreitas e esgotos a céu aberto brincavam crianças. Às vezes seguiam-me . Enrolavam-se nos meus longos vestidos floridos e brincavam com o meu par de tranças. Corria e cantava com elas, como que a afugentar o medo. Com o tempo fui ganhando confiança, retribuindo as boas tardes que ia recebendo e fazendo paragens para dois dedos de conversa. Foi assim que conheci o Velho Serafim.

Sempre sentava na soleira da última porta da terceira rua. Talhando madeira. Dessas figuras que depois se vendem por aí e regateiam por tuta e meia. Eram bonitos os personagens que lhe saiam das mãos. Muito magras e enrugadas. Guardo um pastor na ponta dum pau que me prendeu o cabelo anos a fio. Comia xerém e funge porque os dentes, só dois, não chegavam pra mais. O sorriso iluminavam-lhe o rosto quando boas eram as notícias do jornal que lhe lia e soltava gargalhadas por me ver enrolar cigarros à maneira de pobre, dizia ele.

Fumava cachimbo, cheirava rapé e chupava mucua. Durante algum tempo resisti a experimentar o fruto. Achava podia ser alguma droga esquisita. Hoje, quando sinto o sabor ácido do filho de imbondeiro, entrefecho os olhos para melhor ouvir o Velho Serafim dizendo que mucua alivia tristeza e leva choro de olho sadio pra mar salgado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Natal todos dias!

Agora no fim de Dezembro
Quando já quase é Natal
Parece que todos são fixes
Parece o mundo NEM TEM MAL!
Todo o pobre está quentinho
Tem comida e até presente
Mas bem antes do Carnaval
Rapa o frio, já tem fome
É enxotado. É DIFERENTE!
O people devia saber
Que isto do verbo ajudar
Não tem dia nem tem hora
É preciso é EDUCAR
Dizer à malta toda
Que recebem e que dão
Que caridade e peninha
Não são mesmo a salvação
O que vale é estar presente
Trabalhar acreditando
Que o mundo vai melhorar
E o nosso contributo VALE TANTO!
A consciência limpar
De pouco serve ou de nada
O Natal já vai passar
Vamos continuar a cravar
A melgar
A reclamar
A ACREDITAR
E tu, não pensas fazer nada?


Beijos gordos da são

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Parabéns Xé!

É só saúde!

Eu tinha aqui uma dor
E fui lá no hospital
Dei o nome, esperei, entrei
E o gajo disse:
Tu não tens nada! Tu não tás mal!
Em pé não aguentava
Pegava fogo na testa
A barriga era um barril
Ele achava era festa
Achei tava a divagar
Da febre sempre subir
Mas era tudo verdade
Tavam-me a mandar ir.
E fui andando pra fora
Insultando todos e tudo
Eu tava a ser despachado
Isto era mais qu’um insulto.
O braço tava partido
A cabeça ao meio rachada
Um olho mais que vesgo
A garganta inflamada
Todo roxo e entrapado
Do pé até ao nariz
E o gajo que é doutor diz:
- Amanhã vai trabalhar que tu tás mais que fixe!
Eu sou porreiro e bacano
Mas não sou parvo de todo
Encostei o peito ao mano
E deixei-o todo rôto.
Vai daí chamam a bófia
Que tempo leva a chegar
E o man meio assustado
Não pára de reclamar
Que está pr’ali a sofrer
E ninguém para acudir
Já passaram dez minutos
O sangue vai-se esvair
O guarda chega e olha
E farta-se até de rir:
- Tás a ver se vais de folga. Tu vai mas é bolir!

Beijo, juízo e tudo de bom!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Lindas?!

Há bocado fui ali de fugida, à D. Deolinda, comprar castanhas assadas, romãs e maçãs de trincar. É pra ir sentindo melhor o Outono, fresco e solarengo, escorrendo sumo rosado e enfarruscando-me de negro, enquanto trabalho ouvindo Miles Davis e a labuta do bairro, que chega pela janela escancarada.

Espreitei na Quinha, só pra dar um alô e um dedo de conversa. É o cabeleireiro mais fashion cá do lugar, aliás é o único. A Quinha é uma angolana muito bem disposta que penteia, colora, despenteia, descolora, madeixa, trança, tissa, destissa, consoante a vontade e a disposição da freguesa. Sempre que lá passo fico ainda com mais certeza de que nunca serei "uma senhora de jeito", como diria a minha avó Dlim-Dlim.

Sentadas, entre Caras e Luxes, com rolos ou papelotes, cada mão enfiada numa tigela plástica muito pinki com cinco buracos para cinco dedos, os pés demolhados num alguidar que borbulha sem parar, uma escova que repucha uma melena mais difícil, a pinça que arranca pelo a pelo a uma já tão fina sobrancelha, o secador barulhento que abafa a kizombada. Elas ficam lindas, é verdade, mas fazem cá umas figuras...

Quase tenho medo daquilo tudo. E respeito. Não vá um dia destes quando lá fôr pedir pente quatro sem brusching, sem plix, sem côr, sem madeixas, sem nada além do corte puro e simples, elas deixarem descair a máquina e darem-me uma zerada para não me armar em gozona.

sábado, 27 de outubro de 2007

Bazar por aí ...

Faz tempo que de quando em quando me roubo para mim. Muitas vezes é difícil porque isto de ser mãe de três e de mais alguns e filha só de pai e mãe acarreta tempos quase sempre reclamados, mesmo quando é suposto o período ser de férias.

Fui arranjando umas artimanhas e lá me safo de quando em vez. Para estar comigo, eu e eu e juntas pensarmos na vida e gozarmos uns momentos de sossegado prazer. Foi assim que fui descobrindo praias e lugares por aí perto, daqui ou de lá, por forma a que as ausências não tenham que ser fugidas.

Tem vezes basta um pequeno-almoço à babuja da Adraga para carregar baterias mas tem outras que só isso é Água das Pedras. Então subimos serra acima pra lá da Peninha, despedimo-nos da lua em dunas vicentinas ou ouvimos o silêncio na penumbra de cedros que resmalham baixinho.

Nem sempre as neuras se vão nestas andanças. Mas sempre se desamarrotam.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

barIMbar

Eramos todos jovens, alegres, giros e cheios de vontade de mudar o mundo.

O Barimbar juntou-nos. A música, o ambiente solto, o Zé Rijo fizeram o resto. No Verão de 1983 a vida de muitos de nós girou à volta do Barimbar, lá em Lagos, na esquina da Rua dos Quarteis. O painel de azulejos, circular, lá continua. A música agora é que é outra...

Aqueles meses de colagens de cartazes Algarve fora sempre à boleia, de longas noitadas de cantigas e conversas, de promessas de amor eternas, do soalho a ranger sob os nossos pés descalços lá na casa em frente à igreja, das orelhas furadas com agulha e pedras de gelo, da sangria e do Português Suave sem filtro, da cesta das compras da Lena e do seu mau feitio, do colete do Sim-Sim, das maluqueiras do Dário, da simpatia do Pedro da porta (http://www.afinador.blogspot.com/) , das camas desfeitas de ninguém, da chegada do postal do pai do Mário "Há Barimbar, há ir e há voltar", das fotografias a preto e branco reveladas numa casa de banho da Reboleira, dos vestidos indianos e dos cabelos e brincos ao vento, dos beijos nos lábios dos muito amigos, das saladas coloridas, da Renault 4L cor-de-laranja com muitos ao molhe lá dentro, dos desenhos nas mesas, dos jantares no Vila, das partidas de comboio e das lágrimas e abraços nas despedidas, fará sempre parte das boas coisas que nos aconteceram.

Para muitos de nós foi o ano de viragem. Das primeiras férias à solta, da entrada para a universidade, da profissionalização na música, da saída de casa dos pais para quem não era da cidade grande. No CascaisJazz logo a seguir combinámos todos no Estoril. Em cada estação entravam mais uns quantos. Foi uma festa. Depois os encontros foram rareando e o acaso foi-nos cruzando em Festas do Avante, no Hot Club, em espectáculos mais jazzísticos, nos anos do Paleka, por aí.

Vamos tendo notícias uns dos outros por uns e outros e é fixe sentir que apesar de já estarmos todos cotas, com uns quilos a mais ou muitos cabelos a menos, continuamos a lutar por sonhos há muito desenhados.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Mundo mix

Esperando a miudagem chegar pra caminharmos pros treinos, aproveito o sol gostoso de fim de dia, sentada num degrau do quintal, cantarolando e comendo amendoins.

- Hei, tu comes mancarra (amendoim)?
- Como. Queres?
- E não te enjoa doce de côco, pois não?
- Não. Queres alcagoitas?
- Tu deves ser de Cabo Verde.
- Não, sou tuga, mas lá do Algarve.
- É mentira. Comes mancarra, fazes cachupa, mandas bocas em crioulo...
- Não eu sou mesmo de cá. Tuga, tuga.
- Deves ser da Guiné - arrisca o Délcio.
- Eu nasci lá no Algarve e depois vim pra cá e pronto.
- Tás a mentir, não tás?
- Olha lá bem pra mim, de que côr é que eu sou? - não é que isso signifique alguma coisa. Mas aí a minha rosácea de estimação traiu-me.
- És vermelha. - diz o Luís
- Aí, a São é d' América, é pele vermelha!

A Gália e eu conhecemo-nos há vários anos, nas escadas do prédio onde morávamos. Ficámos amigas. É moldava, toca maravilhosamente violino e ensina meninos a tocar e, principalmente, a gostar muito de música. Dizia-me ela:

- Padruska (amiga), acho tu não és bem portuguesa.
- Ai é?
- Ontem eu te perguntei a que horas almoçavas e tu me respondestes que nem sabias, que era quando desse jeito ou quando a malta tivesse fome.
- E isso é não ser portuguesa?
- Isso é ser um bocadinho russa. Os portugueses sempre têm hora muito certa para tomar as suas comidas.

São bocadinhos de vocês que guardo no coração. Beijos gordos.

sábado, 13 de outubro de 2007

Contar parte

Nha Nézinha gostava de sentar junto do povo jovem e de contar parte. Parte lá da terra do lá longe, parte de bandido fugido de bófia e caçado por mais bandido que a si, parte de quando Zé Mindelo a tinha ido pedir ao pai e com o nervo bebeu grogue demais e chorou de grosso e muita parte com filhinhos pequenos presos à saia e à chupa de mamã.

Gostava de agradar Fatuxa, filha codé (mais nova), única em casa cuidando. Embarrigara de Fatuxa já mulher partida pra velha e tivera choro grande de desgosto. Vergonha de mulher parida avó de netos homens feitos.

Nasceu de olho aberto e goela escancarada a cachopa. Havera de ser mulher pra vida dissera doutora que a trouxe pro mundo. E era. Professora diplomada, dessas de ensinar a ler e a escrever criança pequena e grandes também.

Até mamã já assinava o nome e lia cartas chegadas do lá longe. Mas o estado nunca mais mandava postal dizendo que tinha escola pra ela ensinar meninos. Então ela ia no shopping e ganhava arrumando tabuleiro de comida. Depois voltava e nha Nézinha lá estava, sentada, contando parte. Fatuxa ia só num instante comer bucha e trazer viola. Encostava na perna da mãe e tocava as mornas mais choradas do bairro.

Um dia, nha Nézinha não acordou mais. Fatuxa fez a trouxa, pegou na viola e foi pro lá longe. Era quase Fevereiro. Lá no Namibe ela foi ensinar. E contar bué parte também.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Porquê o meu silêncio?

Mais ou menos a meio da manhã chegava. Às vezes, quando vinha.

Durante anos foi assim. Outonos, Invernos e Primaveras. No Verão as férias levavam-nos para lá dos muros da escola e perdia-nos e perdiamos-lhe os rastos.

Nunca aprendeu a ler ou a escrever, a jogar à rabia ou a saltar ao eixo. Contava estórias que achávamos estranhas mas quase sempre o ouviamos. Nem sempre com carinho, vezes com pontas de troça ou de desdém. Era um mundo de ilusão numa cabeça que se recusava a crescer, pensava eu.

Passaram muitos anos. Li num jornal. Pedofilia. Não era ele quem lá estava, mas todos eles tinham o seu rosto. Parece o ouvia contar, sentado no banco ao lado do portão da escola velha. A voz fanhosa enaltecendo as tropelias noite fora Praia da Batata dentro. Chamava-lhes chapagem. Ria-se. Falava em dinheiro e em roupa nova oferecida por cámones panascas. E fazia "Schschiu!!" pra não contarmos a ninguém

Achei era estória. Não contei nunca.

Afinal devia ser tudo verdade. E eu devia ter falado.

Bem alto!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A caminho dos treinos

As viagens de ida e regresso para os treinos de andebol voltaram à ordem do dia. As inscrições para as boleias começam às segundas e terminam quando a carrinha está cheia ou não consegue levar nem mais um, magrinho que seja. Às vezes há umas excepções como quando a Mi, única menina, chega esbaforida, à hora da partida, sem marcação e, com os olhos muito esbugalhados me contrapõe:

"E vais-me deixar aqui na rua, de noite, sózinha e a chover?"

No percurso falamos de tudo e cantamos quase tudo o que sabemos. Distribuem queixas e tecem elogios às professoras e aos trabalhos de casa ainda por fazer, desenham e decidem tácticas de jogo, preveem vitórias com grandes cabazadas e arremessam perguntas em catapulta sobre tudo e sobre todos. Muitas são autênticas pérolas.

Debaixo do viaduto do SATU abriu uma churrasqueira de nome "Brasinha". Novidade no burgo. Dúvida na cabeça dos marmanjos.

- O que é que é uma brasinha?
- Aí meu, quem não sabe?...
- Eu não sei e não sou parvo. Tu sabes?
- Claro, é uma miúda assim toda jeitosa, boa...
- Ah... Atão é o mesmo que grossa...
- É pá és mesmo atrasado. Grossa é muito melhor que brasa.
- A Mi quando fôr grande vai ser grossa e brasa, não é Mi?
- Deves ser é parvo. Eu quando fôr grande vou ser é uma Mantorras.

sábado, 1 de setembro de 2007

Há feira em Bensafrim!

A feira de Bensafrim representa o quase fim de férias, o regresso às escolas e ao trabalho, o deitar e acordar a horas ditas decentes e também as passeatas Serra de Sintra adentro, o vai vem dos treinos de basquete e de andebol, o despe e veste das piscinas, os acampamentos de escuteiros, as reuniões de pais, as cachupadas, os ensaios, ... mas tudo isto só acontece lá pra depois da feira de Bensafrim passar.

É por lá que se anda em banheiras a motor e em motoserras aceleras, se aplaude cavaleiros e amazonas mais ou menos artistas, se come o melhor doce de figo do concelho de Lagos e, principalmente se encontram os velhos amigos dos tempos de escola e se ouvem as estórias dos mais velhos.

O Ti Juanito Chula é um amigo que já não é porque os torrões já lhe fazem algum peso. Conhecemo-nos no Lar de Misericórdia, long time ago. Gostávamos um do outro como os avós gostam dos netos e os netos dos avós. Quando chegava a Lagos mandava-lhe recado pra irmos beber um sumolzito e pôr a conversa em dia.

O Ti João era nascido e criado no Vale de Bensafrim e aí tinha sofrido gostos e desgostos, perdas e geadas, anos e amores. Às vezes falava de como o vale tinha sido próspero, das cheias da ribeira, da chegada dos cámones às Colinas Verdes, da esperança de desenvolvimento a quando da abertura do restaurante do João da Gruta, mas animava-se era quando chegava o fim d'Agosto e era o dia da festa.

Trazia-me sempre as "feiras": um saquinho de figos secos ou de amêndoas, uma quadra de manjerico, um caneco de barro. No seu último ano trouxe-me um "rajá". Um supermax fresquinho, comprado pela manhã, embrulhado no papel pardo da mercearia do Zé d'Almeida e passeado todo o dia na algibeira do Ti João, foi certamente o que ele, que nunca pôs nada frio no bucho, sentiu que mais prazer me traria. E acertou!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Banho 29

A 29 de Agosto, em Lagos e noutros lugares do Algarve é costume os serrenhos e os mareiros se banharem no mar depois do sol posto.

Vinham de burro, com os alforges cheios das iguarias da serra, cantando e rindo estradas fora, direitos às praias. Dizia-se que este banho valia pelo ano inteiro e dava saúde da boa.

Hoje em dia o corropio às praias na noite de 29 de Agosto mantem-se mas, as camisas de dormir e as cerolas são só pra lembrar os antigamentes.

Desde sempre cumpri o ritual do 29. Primeiro com os meus pais e família, na adolescência com os amigos, entre fogueiras, guitarras e sol nascido já a 30 e depois mostrando aos filhos o gozo que é mergulhar na escuridão do mar, correr para embrulhar em mantas e devorar o arroz de tomate fumegante que sempre fez parte do nosso farnel.

Foi assim este ano. No Porto de Mós, mais abrigado que a Meia Praia. Faltou a fogueira. De resto esteve quase tudo. Até a lua tinha enchido de véspera. As crianças pequenas foram partindo quase adormecidas, a cantoria tornou-se mais suave e menos efusiva, a areia muito morna, apenas algumas empadas, um pouco de tintol e um panelão de sopa completamente vazio repousavam por ali.

Se entrefechar os olhos ainda ouço o "Woman no cry" ou o "Samba pa ti" que o nosso Zé fez a guitarra chorar. Beijos pessoal. Até pro ano!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Ti Agostinho

Quando em férias, gosto de me sentar no Largo Gil Eanes, pela manhãzita, a ler o meu DN e a beber o primeiro café do dia.

Numa dessas quase madrugadas, por sinal enevoada, o Ti Agostinho, aproximou-se pra me dar os bons-dias e uns poucos de dedos de conversa.

O Ti Agostinho gosta de dizer que já fez nove dezenas há pra cima de cem meses e, que tem idade própria pra pensar e dizer tudo o que pensa. À noite costuma sentar-se no poial da porta e ler os recados das estrelas sobre o que diz respeito à lavoura e à prenhice do gado. Quando tem parceiro toca harmónica e canta ao desafio aquelas modas malandrecas costumeiras do barrocal algarvio onde viveu toda a vida, até decidir, por vontade e pé próprio mudar-se pró lar por si escolhido.

Falou-me do bom que é a brandura matinal para o amadurecimento dos figos, dos calos que lhe atormentam os pés, dos chatos que são alguns "velhos" lá do lar, da simpatia das funcionárias, do conforto das camionetas da carreira de hoje em dia, da carestia das contribuições, ...

Um comparsa passou e reclamou a sua presença para um joguinho de bisca lambida. Levantou-se e despedimo-nos. Já lá ia mas voltou. Mirou-me e remirou-me. Deu uma voltinha à cadeira onde me sentava. E outra ainda no sentido inverso. Pôs-me então a mão no ombro e pesaroso:

"- Conceiçanita, vomecê tá tã gorda. Velha. E feia."

Fez uma pausa. E, de novo:

"- Velha. Gorda. E feia! E era tã jeitosita..."

sábado, 25 de agosto de 2007

Sôdade de nos terra...

Os nossos andebolistas infantis da Assomada foram a Lagos ao Torneio Internacional de Andebol.

Para alguns deles foi a primeira saída de casa, para longe da família e do Bairro da Outurela.

Pessoalmente fiquei muito feliz por os "nossos putos" puderem ir passar uns dias divertidos à minha terra natal e, enquanto não desci até lá não descansei.

Entre jogos e idas à praia ainda deu para brincar nos insufláveis e ir até ao Zoo de Barão de São João.

É um espaço onde se sente que os animais são felizes e muito bem tratados. Os miúdos deliraram com os macacos, a passarada, a ceifeira debulhadora e também no parque infantil e nos jogos de cartas disputados nas mesas da zona de merendas.

Durante este saltitar percebi que um olhar sempre os seguia. Uma mulher jovem ainda, mestiça, zeladora da limpeza do lugar, ia deslizando um olhar furtivo e húmido na peugada dos rapazolas. Sorria ao seu sorriso e às suas graçolas e aproximava-se o mais possível para escutar as aventuras relatadas em crioulo de "badio" que nunca pisou chão caboverdeano.

A dada altura não resisti e abordei-a:

"- Você é de Cabo Verde, não é?

- É.

- E deixou filho na terra ...

- Foi..."

Lia-se nos seus olhos a "sôdade" de lá e de quem lhe rompeu do ventre.

"- Venha mamã, lanche connosco!"

Puxaram-na, abraçaram-na, quiseram tirar fotografias todos à sua roda.

Natalina falou-nos da recente vinda, da luta diária, do sonho quase a concretizar de mandar vir o único filho e da alegria de, pela primeira vez em terras lusas se ter sentido perto de casa, ali, naquela tarde solarenga, com os putos da Assomada, numa alegria contagiante, a crioular graças e desgraças da sua vida de campeões de jogos de escondidas e apanhadas.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Minha querida Lila!

A Lila sempre fez parte da minha vida. Já lá estava quando cheguei.

E, nessa época, há mais de quarenta anos já ela era, digamos, especial.

Usava minis muito minis, que arregaçava quando subia para uma mesinha de madeira onde gostava de dançar yé-yé, ao som beatleano que saia dum gira-discos plástico em azul turquesa.

Na cidade de província em que viviamos a Lila era do mais moderno e ousado que por lá se tinha imaginado. Era a cor no meio dos vários tons de cinzento, a sua gargalhada fácil distinguia-se pela praia fora e encantava a criançada das redondezas nos preparos para os anuais concursos de construções na areia organizado pelo DN ou, quando no final do Verão festejava o seu aniversário, com enormes salames de chocolate e jarros e jarros de limonada.

A Lila era a tia que todos quisemos nossa.

Já passou dos 60 mas a gargalhada fácil e a excentricidade mantêm-se. As saias, agora negras, roçam o chão, o eye liner continua a alongar-lhe os olhos e só da sua boca saiem verdades tão verdadeiras que vindas da boca de quaisquer outros seriam ofensa.

Sempre lidou muito bem com os assuntos da morte. Tão bem que há um tempo atrás resolveu comprar um talhão de terra no cemitério municipal. A pensar no futuro, contava-me ela. Só que houve quem na família se apressasse para o lado de lá e ela quiz ter o prazer de de lhe ceder a vaga.

Numa recente ida ao cemitério por ocasião de um funeral, reparei que o tal talhão se encontrava demasiado enfeitado de marmoreadas obras de arte sacra. Estranhei, uma vez que o infeliz ocupante não era dado a tais preparos e muito menos a tão elevados gastos.

Quando comentei o meu espanto com Lila, ela respondeu-me com toda a queitura que a caracteriza:

"- Eu é que escolhi a decoração e os santos. A terra é minha. Ele é só meu convidado!"

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Amor à espera ...

"Deve de ser bom saber que se tem um amor há espera..."

Falou baixito, contemplativa, enquanto juntas e de mãos dadas mirávamos os miúdos, que na parte baixa do jardim corriam sobre andas e rolavam relva abaixo.

O amor dela partiu há muito em busca de vida melhor, acreditando em promessas que nunca saberemos se se concretizaram. Ela ficou na espera, criando os seis filhos que "Deus já tinha dado". Lavou escadas, fez pastel pra fora, chorou , prometeu e cumpriu idas e vindas a santuário rezando pela volta, amou filhos e cria netos, comendo quantas vezes o pão que o dito amassa.

Nunca quiz voltar a acreditar nos homens nem nas suas promessas de amor. O tempo trouxe reforma e levou filhos para lá longe, trouxe inchaço nas pernas e névoa nos olhos. Entre as minhas mãos sinto o calo grosso de trabalho e as artroses dolorosas que quem passou a vida com as mãos na água dos outros.

"Com as minhas mininas vai ser diferente. Vão ter um amor à espera..."

Não respondo nada. Finjo nem ouvir. Ela insiste.

"Num é? Elas todas já têm homem..."

Passo-lhe o braço sobre os ombros.

"É... "

Trinquei o lábio e cerrei muito os punhos. Como eu tão bem sei o quanto lhe menti.

 
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