quinta-feira, 3 de julho de 2008

Paulinho Pargana

Crescemos quase juntos, ruas chegadinhas, a escola velha, o cinema na rua de lá, o Abrigo mais abaixo e a Meia-praia à distância dumas poucas de remadelas na barcaça do Armindo.

Brigamos e fizemos as pazes vezes sem conta, ganhámos e perdemos contratos Páscoa sim Páscoa não, jogámos berlindes e ao mata, às estátuas, ao pisa e à verdade e consequência. Aprendi a tocar na guitarra que os pais lhe trouxeram de Espanha e começou a gostar de ler com a "Crónica dos bons malandros" que recebi de presente. Trocámos almanaques, cromos e as confidências dos primeiros amores, ouvimos os discos e as cassettes todas da moda e até os pirosos, chorámos desilusões no ombro um do outro, trouxe-lhe areia, água do mar e amigos quando a hepatite o prendeu em casa e ele contou-me a vida da rua quando a febre reumática me arrastou pra cama.

Foi com ele que os meus pais me deixaram sair à noite as primeiras vezes, juntos fomos aos festivais da cerveja de Silves e aos concertos do Parque das Freiras, foi o DJ que pôs a malta a dançar no velho Charlie Chilly da Aquazul e nas matinés do Ping-Pong, sempre me lembrando quando chegava a hora de recolher.

Vibrou quando me nasceu o primeiro filho. O Chiado ardia na televisão da sala dos meus pais quando bateu na janela e entrou casa adentro, naquele seu jeito meio desajeitado. Tirou o Lopo do berço e aconchegou-o ao peito, falando-lhe baixinho, naquele voz de falsete que lhe era tão característica.

Era Verão. A minha mãe passou a manhã a entrar e a sair. O meu pai estava triste e mudo. O almoço ficou na mesa. Até no café da esquina reinava o silêncio. Estava calor. Muito calor. Nunca lembrei quem trouxe a má nova. Parecia um eco. O Paulo morreu num acidente, ...dente, ...dente...

Enraiveci de dôr. Nunca mais consegui entrar no Vitaminas. Nem no Zapata. Demorei anos até voltar a ouvir Carlos Santana, a jogar badmington e a passar no lado dele da rua, onde há meia dúzia de dias nos tinhamos encontrado entre abraços e gargalhadas.

Já não fujo dos pais do Paulo nem finjo que não tenho saudades, faço é sempre de conta que foi de viagem e um dia destes ainda aparece por aí.

3 comentários:

pedro correia disse...

O Paulo Pargana...
Também tenho saudades, apesar de o ter conhecido muito mais tarde. Pus música com ele muitas noites no Zapata e no Phoenix,fiz com ele e com o Kuka o Borda d'água, aos sábados, na extinta rádio Barlavento.
Estava em Coimbra quando, meses depois, o Kuka me comunicou a notícia. Lembro-me do choque, lembro-me de muitas coisas, lembro-me muito dele, do Paulo Pargana.

Anónimo disse...

COMEÇOU NO CICLO, PASSAMOS PARA A SECUNDARIA E CONTINUOU...CÃO E GATO...SEMPRE BRINCADO E BRIGANDO!
É UM AMIGO!

Anónimo disse...

eu trabalhava com ele no zapata quando teve o acidente :(

 
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