segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

nostalgia

Os olhos da minha mãe nunca foram muito brilhantes. Condiziam com o ar triste e belo que sempre lhe conheci. A sua serenidade contrastava com uma quase permanente preocupação com o que não nos preocupava a nós, tidos por ela como seres pouco responsáveis e demasiado optimistas perante o estado da vida e do mundo. Houve alturas que me pareceu que, assim como nuns repentes de luz, se permitia ser feliz. Dançavam os dois sempre de olhos nos olhos e lia-se que, apesar dos muitos anos, das zangas e discórdias, a paixão nunca morrera. Numa noite como as outras, ele abriu muito os olhos verdes e disse-lhe que parecia tinha chegado o fim. Infelizmente não se enganou. Os olhos da minha mãe perderam o brilho, o cabelo embranqueceu de vez, o mundo vestiu-se de negro e a casa da minha infância tornou-se um lugar de silêncios, sombras e dor. Cada vez dói mais vir a Lagos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Vó Natalina

Nem sei bem porquê mas hoje lembrei-me amiúde da Vó Natalina, anciã de origem africana com quem me vou cruzando de quando em vez. Falamos dos filhos, dos netos e do tempo mas nunca de mazelas, tristezas ou desventuras. Ela diz que a fazem ficar mais manca, mais feia e lhe tiram anos de vida.

Quando numas manhãs de fim de Verão começámos a falar da possibilidade de ir à terra rever família, lugares e amigos, Vó Natalina animou com a ideia da viagem e de se livrar por umas semanas da rabujice de quem doze filhos lhe dera a parir. Já praticamente de malas aviadas de roupa nova e presentes para os sobrinhos mais que bués, comunicou, solenemente e de cara fechada que já não ia e nem valia a pena insistir porque a decisão estava tomada.

Tinha revisto a sua vida desde a partida do lá longe, há quase quarenta anos, quando, segundo ela, era jovem, bonita, bem grossa e moça muito desejada pelos jovens casadoiros da terra. Não os podia desiludir, voltando velha, gorda, desdentada, manca e, ainda por cima, comprometida com o Jaimito na graça de Deus nosso senhor até que a morte o levasse, porque ela ir à frente pró buraco é que era coisa que nunca haveria de consentir.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nos dias e dias, anos e anos vamos vivendo um rol de personagens que fazem as nossas vidas mais ricas e plenas. Depois da correria, da canseira, das dúvidas, dos desalentos e dos desafios que vamos ganhando ou perdendo existem aqueles momentos curtos, quase de fugida que valem pelas férias caribenhas a que nunca chegaremos. Momentos de paz, de carinho, de reflexão ou simplesmente de paragem, de silêncios e cumplicidades.

Noite fora, de Belém à Trafaria, indo e vindo, ao sabor do horário do cacilheiro, da música saida do ipod e dum lanche embrulhado às pressas. Deixarmo-nos ir adormecendo e acordando, entre palavras, enquanto lá fora a chuva cai, as ondas galgam os rochedos e o farol do Forte de São Julião nos liga à firmeza da terra.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Terra à vista ?

Tem dias o mundo parece quase perfeito. O sol brilha até quando chove a potes e o luar espalha prata em noites de lua nova. Nesses dias todos os meninos cantam canções de roda, dão as mãos e acreditam nos amanhãs sonhados. Nos outros tantos dias que sempre são demais, parece o sol se cobre de geada e a lua de negro se veste. As mantas não aquecem o Agosto das vidas e as estrelas não iluminam as estradas que sempre se transformam em lugares sem saída à vista.

No sempre depois-já-quase-a-seguir, as feridas saram, os caminhos voltam a ter rumo e o sol e a lua seguem o seu percurso estudado de fazer dias soalheiros e noites luarengas, trocando-nos as voltas em eclipses não previstos na metereologia do canal público.

Assim têm sido os anos passados. Despedimo-nos do sol à tardinha, na babuja salgada de mar chão ou revolvo, consoante os dias e acordamos na partida da lua, fresca de geada ou seca de tanto estio. De quando em quando também ela entardece a tempo de ele se despedir ou então é ele que a espera na linha recta do oceano, ambos em sede de reencontro e desejo de passos paralelos.


Tenhamos nós a capacidade de pegar numa mão cheia de boa vontade, tolerância, criatividade qb, amor próprio e ao próximo, acrescidos da experiência e trabalho acumulados, produziremos certamente obra com sucesso garantido.

O que não quero não é a lua quase cheia nem o sol de Outono. É mesmo e tão só a escuridão do céu que quero azul seja noite ou dia.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

15anos15anos15anos15anos15anos

Agora já nos finais de Outubro, quando a escola e os treinos já estabilizaram e deixaram de ser novidade, sobra mais tempo para as conversas, silêncios e desabafos. A carrinha cheia de miúdas com a adolescência a explodir por todos os lados, cheias de dúvidas e preocupações sobre assuntos deveras preocupantes: rapazes, amigas, beleza, rapazes, comida, rapazes, amigas e as quase terrriveis mães que praticamente acham que mandam nelas, naquela roupa preferida que acusam de ser de menos, nas horas de chegar que acham sempre a mais e ainda na escola que têm sempre a certeza que não tem a atenção merecida.

Falam tão alto que até dói lá no fundo dos ouvidos. Confesso que já teve dias que os atulhei de algodão, correndo o risco de nem ouvir alguma sirene que me avisasse que estava na hora de mudar de rumo, não fora encontrar-me com alguém, ainda que amigo, que não apreciasse assim onze ou doze miúdas mais eu dentro duma carrinha supostamente para nove pessoas. Eles às vezes são assim um bocadinho pouco compreensivos, exageram, nem percebem que elas são fininhas e que aconchegadas umas às outras até vão mais seguras.

E falam todas ou quase ao mesmo tempo. E cantam. Daquelas músicas fantásticas que falam de amor e de traição e que fazem choram as mais rústicas pedras de calçada. E contam, contam, contam. Da escola, das amigas que afinal não são bem amigas mas que amanhã ou daqui a bocado já são de novo, daquela imensa paixão que tira o sono à noite e o traz de volta logo na primeira aula da manhã, exactamente quando a setôra estava a explicar a matéria que saiu no teste de hoje e vá lá ver-se se não foi até de propósito, porque há setôras que até são más. As tais que não são bem amigas é que são um bocado anhadas e ainda têm a lata de dizer que foi bué fácil e isto tudo só porque o miúdo mais giro lhe calhou par na equipa de badmington do ano passado e foram juntos às finais ao Norte e ficaram lá sózinhos com a DT um fim-de-semana inteiro.

Elas não sabem é que ele afinal não foi o garanhão que ela descreveu pois muito pelo contrário. Mas se lhes contasse que o dito chuchava no dedo, chorou com saudades de casa e, pior de tudo, dormiu sempre de meias e pijama de flanela a sua reputação estava concerteza completamente arruinada.

E há riscos que uma miúda não pode correr ...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

contra a corrente

No princípio é sempre era uma vez de qualquer coisa. Já não lembro qual. A nossa estória de cumplicidade foi uma vez dum dia qualquer, quando os tempos ainda não eram comuns nem o querer caminhava em sentido único. Com o correr do tempo passámos a adivinhar as palavras por dizer e os anseios por alcançar, os apertos no peito e as graças que nos fazem gargalhar até doer quase tudo. A bola que girava apenas no campo passou a rolar ao ritmo dos meus fins de tarde, em cada giro que a carrinha faz pelos bairros; as más novas que lia apenas nos jornais ganharam outras perspectivas e trouxeram revolta pela inércia dum sistema que apenas vislumbra o só amanhã, não apostando em metas parcelares com lucros não imediatos. A incapacidade para continuar projectos já iniciados com fim à vista, a dor pela falta de participação activa de quem de direito, que afinal somos todos nós, a ignorância face ao óbvio que é o futuro social comum das gerações vindouras rouba-nos, em momentos de fraqueza, aquela força de lutar pelos amanhãs sonhados em que acreditamos, mesmo quando razão e as leis dos homens nos querem destinar o contrário.


Mana, nos sta djunto. Pa venci.


mmm

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sem palavras

querida isabel,

passou quase um ano desde que te perdi o rasto. mergulhei por lugares que desconhecia existirem, rodei quilómetros procurando uma pista, escrevi centenas de mensagens que não chegaram ao destino e fiz-te morta quando tive certezas que estavas viva.

continuo por cá. nas mesmas lutas, nos mesmos lugares, acreditando quantas vezes no impossível e comprando guerras que podia fingir são de paz. sonhando demais provavelmente. ou fugindo do que me assusta e tormenta.

quantas e tantas vezes pensando por onde andas, que pensas, se sofres, se ris, se me riscaste da tua vida, se voltas, se ... duvidando da força do querer e abandonando esperanças vãs dum reencontro intemporal.

bastou ouvir-te a voz para que um misto de serenidade, pranto e vitória se instalasse. Tem vezes a razão é fraca e só o coração tem palavra.

ainda bem que voltastes.

domingo, 23 de agosto de 2009

De volta à labuta

Meus queridos CDA's,

Claro que estou cheia de saudades vossas e dos vossos fantásticos abraços e mimos mas bom, bom, era poder juntar esta maravilhosa suestada numa trouxa de pano di terra, levá-la comigo na furgoneta e, à chegada, espraiar a Meia por inteiro aí mesmo no terraço do nosso atelier ou no parque, entretanto já quase despido do nosso festival de emoções.

Quase tenho peso na consciência de ter tido o atrevimento de vir de férias e deixá-los aí todos na labuta. Mas aqui a mamacita não esteve só a banhos e a curtir o terraço e os petiscos da avó Maria que, confesso aqui entre nós não está fácil de aturar, é a verdadeira mãe de filha única, com todos os caprichos e casmurrices a que tem direito mas também com as lamechices e todas as coisas boas que só as avós parecem saber de cor.

Volto de energia em alta depois de muitas horas de sono, de livros e de Meia-Praia. Devia ter acabado relatórios, disfrutado algum tempo com os amigos de cá, tratado daquelas burocracias infernais de finanças e afins, mandado caiar os muros e limpar as valas e até jantado num lugar simpático nem que fosse uma só vez, mas, desta vez, só consegui mesmo ser mãe relativamente atenta, filha pouco dedicada e salvadora do que ainda de mim restava.

Daqui a uns minutos abalo. Deixo os gaiatos e o pai deles em mais um fértil período de avósanso e vou por aí fora, de janelas abertas, música alto, direitinha ao CCB para o espectáculo dos Terrakota. É lá que nos encontramos, não é?

Beijos, beijos, beijos

mmmmm

domingo, 2 de agosto de 2009

Verão no Parque

O VERÃO NO PARQUE tem vindo acontecendo no sonho, no trabalho e no coração de todos os que vestimos a camisola desta equipa. A última semana foi o descobrir como tudo o que até então eram só palavras no papel era na verdade, ao vivo e a cores.

O Parque da Quinta do Salles tem sido palco de múltiplas vivências formativas e lúdicas, de partilha de saberes e de encontro de quem bem se quer. Vibrámos todos com os Terrakota, a Marta Plantier, a nossa Valéria e a Lura. Dançámos e cantámos juntos até o que não sabiamos de cor, inventámos soluções para os imprevistos entre aulas de capoeira e de kizomba, de pincel ou de chave de fendas nas mãos, acreditando sempre que sempre é possível.

Subi agora ao atelier para apanhar um panelão de sopa que as mães fizeram durante a tarde. Lá em baixo, na relva, as tendas estão montadas em meio círculo, de frente para o palco. As guitarras soam, os jovens rappers cantam ao desafio e os mais piquinotes vão-se encostando, ao sabor das estórias que se vão soltando.

Não sei se foi isto que sonhei mas não tenho dúvidas do quanto sou feliz nesta comunidade que, há muito, tão bem me acolheu.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Maria

Tem dias que ou desço à terra ou é mesmo a terra que se eleva e me toca os pés, quase me puxando e obrigando a criar calçada. como a luz que se acende no tablier mostrando o depósito em estado de quase parar. o despertador que lembra uma alvorada tardia que apetecia não ter chegado. a carta das finanças que fala dum imposto por entregar. a roupa que cresce em pilha pedindo ser engomada. a balança que não se inibe de mostrar em números robustos o que não devia acontecer. a tosse seca matinal em castigo aos cigarros da véspera. as horas que se recusam a demorar nem que seja tão só mais uns minutinhos que sessenta.

A chegada da Maria foi a calçada alinhada, o depósito quase cheio, as horas que até parece têm mais tempo. Não sei se é uma espécie de grilo falante se uma voz em gestos precisos de segurança, mas sei que lá de dentro vem coisa boa.

Ainda bem que vieste.


,,,

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Nô djunta mon

Foram chegando pouco a pouco e num repente já são mais de trinta. Os jovens do bairro, mais uma vez responderam à chamada e, quando ainda faltam doze dias para darmos início ao VERÃO NO PALCO, os nossos voluntários trocam experiências em dinâmicas de grupo orientadas pelo Hélder e pela Maria.

Correm, riem, jogam, juntam-se e desjuntam-se em grupos, consoante as indicações dos moderadores. Silenciam nas explicações, colocam dúvidas e correm de novo pelo terraço, já sombreado pelo tarde da hora. Quando forem grandes querem ser jogadores de andebol e de futebol, bombeiros, polícias, professores e artistas. Os que já são grandes vão galgando caminhos e cruzando metas. Mas todos eles não nos deixam dúvidas quanto à sua generosidade.

Juntos desenharemos os amanhãs sonhados.
kkk

terça-feira, 14 de julho de 2009

de caminho


As nuvens mal correm no céu da Outurela. O bairro prepara-se para adormecer. Só a brisa sopra de mansinho, como que para me trazer as últimas risadas e cantorias que ainda soam no parque. À noitinha, quando o trabalho já esmoreceu, o silêncio quase se ouve e a tijoleira ainda amorna os pés descalços, parece todos os amanhãs são possiveis, belos e de paz.


Acendo um último cigarro, aterro num dos pufs do terraço e deixo-me ir, sonhando .

quarta-feira, 24 de junho de 2009

do fundo do coração

Escrever cartas a quem se ama é sempre um bom incentivo para aprender a juntar letras e formar palavras. Tem sido assim, todas as manhãs cedo, enchendo folhas de papel pautado enquanto o parque acorda e os telefones ainda não tocam. Cartas de saudade, de desabafo, de reeinvindicação, de amor sonhado. Umas vezes de verdade e outras assim a modos que de faz de conta mas, sabemos ambas, é nessas que o coração solta a mordaça, fala solto e nos deixa a cabeça à roda, cheia de dúvidas e de vontade de traçar novos caminhos.

Se calhar devia ensiná-las a escrever só cartas de mentira, daquelas que começam por "Queridas primas, Desejo que esta carta as vá encontrar de boa saúde que eu estou bem graças a Deus", que terminam com "muitos beijos e abraços desta prima que muito vos estima" e que pelo meio falam do sucesso do emprego dos filhos, de como os netos vão bem na escola, da televisão nova que acabaram de comprar e do bom que é viver na Europa.

Mas essas são as cartas que depois da lição são deitadas no marco do correio. As outras, as que nunca são enviadas, falam das fraquezas, da pobreza, dos maridos ausentes, da falta de amor, da luta de cada dia, das patroas, do frio do Inverno, da demora dos documentos, da sede de afago,daquele aperto no peito que tira vontade de tudo e do grito rouco que vem lá do fundo e dá aquela força de continuar a acreditar em amanhãs melhores.

Esta noite, quando todos dormirem, vou escrever-me uma carta.

ssss


quinta-feira, 18 de junho de 2009

primeira vez

Por mais vezes que se fale da primeira vez, jamais alguma primeira vez perde o sabor da novidade e o arrepiozinho do desconhecido.

É o primeiro dia de escola com tantos novos amigos, a professora, boa ou má que nunca vamos esquecer e aqueles recantos de recreio que se vão tornar a nossa casa;

O primeiro amor, que brilha mais que a estrela mais brilhante que agora vislumbro pela janela escancarada ;

A perda do carrinho mais veloz que se acidentou escadas abaixo, a mancha de tinta verde no vestido preferido, o primeiro dente de leite a abanar, o nosso nome escrito em letra de mão e sem ajuda no caderno diário, as manhãs as tardes e as noites que passam a ser tantas horas e tantos minutos, lidos a custo num mostrador de relógio, a bicicleta que finalmente deixou de tombar e aquele miúdo parvo que não nos sai da ideia.

A descoberta do próprio corpo, o prazer e a dor da paixão, a primeira saída à noite com os amigos, de cigarro e cerveja em punho, ainda com horas de voltar mas com chave de casa no bolso, o calor do desejo e a pressa de o calar.

Ir de férias sem escolta, tirar a carta, subir saias e descer decotes à medida da moda e dos desejos de cada dia, ganhar a vida, descer a rua de saltos altos, despedir o acne, votar, atravessar o Tejo de cacilheiro, negociar o aumento de salário, jantar à luz de velas, dar sangue, dormir ao luar, separar o lixo, fazer greve, usar óculos, adormecer no comboio, ir à Meca sonhada ou simplesmente pintar as unhas das mãos.

terça-feira, 16 de junho de 2009

ser mãe

há exactamente vinte e um anos, por esta hora, desciamos a avenida da liberdade com destino ao cais do sodré. no vagar do caminho subimos no elevador de santa justa e deixamo-nos ir atrás dos sonhos. no passadiço para o carmo demoramo-nos em longos beijos e abraços apertados. lá em baixo, na rua garrett, encostado a umas floreiras que lá havia, um jovem flautista tocava uma melodia que ainda hoje guardo, acho que no coração. no céu brilhava uma lua quase cheia e a brisa soprava de mansinho, levantando o vestido leve e florido que me cobria. apanhámos o último comboio e regressámos num dos primeiros. de mala na mão, aperto no peito e uma espécie de receio do desconhecido desejado que estava mesmo já a bater à porta. lutámos pela liberdade entre gritos e penumbras. num repente de dor aguda fez-se à vida. senti-o quente e húmido sobre o meu peito. pulsando vida.
a nossa vida.
mmm

segunda-feira, 1 de junho de 2009

gente pequena

Dizia o poeta, que acho nem era muito chegado à gaiatada, que o melhor do mundo são as crianças. É. E bom mesmo é aquele bocadinho de gente pequena que vamos mantendo de saúde mesmo quando já somos gente grande. Aquele lado do disparate, dalguma inocência, de ter um gozo do caraças ao chupar um gelado de gelo ou ao inventar aquelas estórias fantásticas que viram vida de verdade.

Cresci filha única e fui ganhando irmãos com o correr dos anos. Coisas de coração. Além dos meus três rapazes há sempre um corropio de miúdos lá por casa e sobrelotando a carrinha, falando uns mais alto do que os outros num frenesim de quem tanto tem para contar que nem quer saber se é ou não ouvido.

Tropeçam em berlindes e em palavras, apertam-se em
abraços e em lutas, zangam-se, fazem cara feia e as pazes, dão mais abraços e prometem paz para o sempre que é já dali a bocado .

Vamos de barco até Almada para ver o Cristo-Rei bater as palmas, mas sempre chegamos depois da hora. Pelo caminho aproveitamos para contar alegrias, medos e truques de escrever cartas de amor em código, com sumo de limão e deitá-las na Praia de Santo Amaro ao cair da noite da próxima lua cheia.

Falamos de coisas sérias e obrigações. Pedimos humildade, educação, trabalho na escola e no pavilhão, respeito pelo próximo, cumprimento de regras e mais aquelas cenas todas que até nós sabemos são peso demais para quem ainda acredita que o mundo é lindo, ridondo e de todas as cores.

Ontem, no palco grande das Festas do Concelho de Oeiras, os miúdos do Centro Comunitário do Alto da Loba encheram-nos o coração. Crianças de diferentes nacionalidades apresentaram danças tradicionais dos vários países de origem. Africanos bailando e falando russo, brasileiros dançando o luso regadinho, moldavos rebolando num funaná a preceito e todos juntos, sambando, cantando, de mãos dadas pela amizade imensa que os une.

Às vezes, no fim do dia, não nos sobra quase nada mas acho já não seríamos capazes de viver longe desta algazarra, né mana? Eu chamo-lhe tempero. Tu chamas terapia. Há quem chame loucura ...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

de volta ...




quando os dias crescem e fica mais quentinho, parece até o futuro é mais grande e quase tudo tem solução.

a cantoria da passarada e o resmalhar dos eucaliptos. o cheiro das figueiras. as risadas e as lengalengas dos miúdos no regresso a casa. os mais velhos recolhidos nas sombras do parque jogando uril e contando parte. as paixões cegando a razão. a tijoleira aquecendo os pés nus e o entardecer sublime de quem não quer ir já para o amanhã.



mm

terça-feira, 12 de maio de 2009

Deixa-te ir ...

Sabes a ladeira dos Barronhos? Aquela cheia de armazéns e portões cinzentos que parece quase nunca abrem? Sobes, sobes, sobes, e lá no cimo de tudo, depois dos campos de milho verde, onde já nem os repolhos crescem, tens assim tipo uma fábrica de cenas de inventar. Podes até pensar que é alcool ou ganza ou até que pirei de vez ou fiquei com cabeça tonta de altitude, mas não é nada disso. Sentas-te fixe, assim meio deitado, fechas os olhos e começas a olhar pra dentro, mansinho como quem nem quer ver. Aí a cena começa. Ventania, passarada, nuvens desvairadas de encontro ao mar, o resmalhar dos arbustos e aquele cheiro bom de oregãos e rosmaninho. Ao longe ouves os jogos de bola, as cantilenas das miúdas na rua do coreto, o ralhar das mães e a reza do terço que começa. Adivinhas as carícias e os beijos escondidos, as promessas por cumprir e as solidões disfarçadas.

Deixa-te ir.
Nos sonhos, parece até o amor é de verdade.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

sábado, 25 de abril de 2009

D. Revolução



Eram oito e pouco da manhã. O portão de ferro da entrada da escola não estava escancarado. A criançada não brincava no recreio da frente. Nem no de trás. A menina Clotilde avisava assim quase sorrateiramente todos os que iam chegando:

"- Vai pra casa piqueno que a D. Revolução chegou esta noite".

Também voltei. De caminho, fui espreitando os burros do vizinho Seromenho, a mercearia do Joaquim Guilherme, a venda da Bia e metendo conversa com o Manel dos Pincels que, empoleirado na sua velha escada de madeira caiava as varandinhas da Porta dos Quartos.

- Atão menina, o Senhor Professor caiu da cadeira ou foi a senhora dele que teve menino?

- Diz que a D. Revolução tá na escola ...
fui dizendo, enquanto amarinhava escadas acima, abrindo rasgão no engomado bibe branco e pintalgando as tranças já tão meio à banda.

A minha avó espreitou do postigo:

- E quem é que vem a ser essa da D. Revolução?
- Eu cá acho que deve ser ...

E nem fui a tempo de dizer "inspectora". A minha avó já bradava lá de cima que a magana que tinha acabado com bibe tão bem costurado bem se podia ir preparando para escrever vinte cinco linhas de "A bata da escola é branca de neve, sem nódoas nem buracos".

Depois, no meio do alvoroço do pessoal, das cantorias, dos soldados que sairam do quartel sem ser a marchar, do coro de "O povo unido jamais será vencido" a minha avó esqueceu-se do castigo e tratou de mandar chamar o Manel dos Pincels para vazar, limpar e caiar a cisterna, não fosse o diabo tecê-las, o tempo voltar pra trás e a família precisar dum lugar seguro para se esconder não sabia de quem.

Na folha de vinte e cinco linhas só escrevi:

Lagos, 25 de Abril de 1974

quinta-feira, 23 de abril de 2009

afinal, quem ?

Chamaram-lhe Maria de Fátima e cresceu Fátinha. Atrás do sonho de vida melhor aterrou em Lisboa no princípio dos anos 90. Descobriu pouco depois que afinal não tinha vindo para o paraíso. A patroa não pagava nem fazia contrato, estava muito frio e a escola não aceitava estrangeiros não regularizados.

Penou nas filas do SEF e nunca chegou à sua vez. Fez o que continuam a fazer muitos imigrantes: inscreveu-se numa empresa de serviços com documentos mais ou menos emprestados por um conhecido, que dizia serem duma irmã que já tinha voltado para a terra. Apresentou-se como Georgina para trabalhar num hotel na linha do Estoril, poucos dias depois.

Parece a vida já lhe sorria. Gostavam dela no emprego, recebia gorjetas dos clientes, morava numa casa simpática com o companheiro e os dois filhos nascidos entretanto. Um dia a chefe chamou-a à recepção, alguém procurava por ela. Eram da polícia e vinham buscá-la. Por mais que explicasse que a Georgina não era ela, que os documentos que estavam na mala eram só emprestados, foi na mesma julgada e condenada a 4 anos por tráfico de droga.

Na cadeia foi conquistando a confiança de todos e com a ajuda de uma advogada oficiosa conseguiu ser ilibada de tráfico e condenada por utilização de documentos falsos. Saiu aliviada mas sabedora de todos os truques de como enganar o parceiro ou fazer seu o objecto alheio. Desesperada e sem emprego, envolveu-se e ao companheiro em burlas e gamanço e acabou por ser apanhada no SEF quando foi levantar documentos. O companheiro foi preso e ela expulsa do país.

Na terra só passou os dias necessários para visitar a família e arranjar passagem. Menos de uma semana depois aterrava em Lisboa como Edite. Apanhou os filhos na casa da amiga onde os tinha deixado, disse à patroa que tinha estado internada no hospital, alisou a cama que continuava desfeita, marcou a data de casamento para o mês seguinte e voltou à lida.

Actualmente marido e mulher trabalham, as crianças frequentam a escola oficial e aguardam que os cinco anos do período de expulsão chegue ao fim. Nesse dia, se tudo correr bem, talvez o Luís e o Zézinho deixem de ser filhos da Georgina, o pai deles se divorcie da Edite para casar com a Maria de Fátima e finalmente sejam uma família de verdade. E feliz para sempre, também.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

elas

Ao longo do dia de hoje fui-me lembrando de mulheres idosas que, por uma ou outra razão estão ligadas à minha infância em Lagos. A minha bisavó Dlim-Dlim, assim alcunhada por nos baloiçar sentados no seu pé direito e que há muito vivia no mundo da imaginação; a avó Aldegundes, mestra doceira algarvia sempre de mesa posta e porta entreaberta; a avó Naicinha, mulher rija da serra, alegre, cantadeira e conhecedora dos segredos do campo; a Ti Torres que morava atrás do cemitério e amanhava os braços e os pés torcidos, a Ti Estrudes do Ti Henrique que já não saia de casa e ficava na janela a perguntar as novidades e a coscuvilhar o mais que podia, a Ti Piedade quer-matar que aviava as pevides e as alcagoitas à porta do cinema, a D. Augusta parteira e mais o seu 4L pintado com tinta de parede, a Etelvina rua acima rua abaixo nos recados à D. Pepa, a senhora Adelina encostada à telefonia que debitava notícias do mar, a doce menina Otília e a ríspida D. Bibita onde todos os miúdos andaram na escola-paga, a Ti Bia da venda onde se vendiam os melhores pirolitos da Porta-dos-Quartos, a senhora Chica das bananas na Rua Direita, a senhora Virgínia da fruta na Praia da Batata e as avós todas que nos esperavam na volta da escola com pires de arroz-doce, ralhetes, recados e mandados mas principalmente com colos disponíveis e estórias tantas de contar e sonhar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

amor ???

descer à terra. matar a rebeldia. calar. ouvir. acatar. aceitar. falar baixo. crescer. acordar. acalmar. parar. entristar. preocupar. nunca ir. não brincar. interdito sonhar.

e apodrecer, não?


lll

quinta-feira, 16 de abril de 2009

não há palavras ...

disseram foi pró céu e mora nos nossos corações.

na ponta do sal parece o céu é maior e o silêncio do marulhar abranda o coração.

afinal era mentira.

nem rasto.
só dôr.

revolta também.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Dizer o quê?



Há apenas umas horas o Santiago cantava o "patinho" e batia palmas de alegria. Atirava beijinhos, gatinhava a 100 à hora e pulava de colo em colo. Há apenas umas horas o Nelson e a Patrícia eram uns jovens pais orgulhosos das gracinhas do seu rebento. Há apenas umas horas o sol brilhava entre os pingos de chuva e um arco-íris iluminava o cinzento escuro do céu.

Tudo se apagou. Escureceu de breu.
De nada serve dar murros nas paredes, soltar palavrões, tão pouco chorar.
Reclamar? Implorar? A quem?
Afinal, quem mesmo é que manda na vida?

terça-feira, 7 de abril de 2009

ASSOMADA ki ta rabenta

Desde sábado que as nossas princesas estão a participar no Torneio Internacional de Andebol do Seixal nos escalões de infantis, iniciadas e juvenis.

Durante a semana vamos lá ao final do dia levar e receber os mimos, ouvir as queixas,as saudades e as novidades de cada dia.


Aqui que elas não escutam até se pode dizer: - São tão giras!!!

E o bom que é sabê-las tão bem entregues ao cuidado das companheiras mais velhas, juníores ainda, mas com grande sentido de responsabilidade técnico e humano. Orientando os jogos, tratando as que se magoam, ralhando quando preciso, zelando para que se alimentem e descansem devidamente, que cumpram as regras e que aproveitem a oportunidade para se divirtirem e fazerem novos amigos.

Dá, Leila, Sofia, Célia, Susy e Edna, brigadão meninas.
Elas dizem que vocês são assim um bocadinho más.
É só porque estão a desempenhar bem o vosso papel.

Miriam, Sónia, Anissa, Jessica, Márcia, Marta, Vânia, Beti, Miriam, Sara, Débora, Miriam, Erika, Bebé, Andrea, Luísa, Odete, Jessica, Cristiana, Tchu, Solange, Tâmara, Claúdia, Liliana, Vanessa, Tânia, Sílvia, Maria José, Aninhas, Méri, Vânia, Mica e Carla, divirtam-se muito, portem-se bem e marquem muitos golos para a nossa Assomada.


Foto de Miguel Nunes, Jornal "A Bola"

domingo, 5 de abril de 2009

Ganho vida nos abraços calorosos de cada dia, nas mãos que palmam uma na outra com fervor, nas gargalhadas que soltamos e no entusiasmo com que acreditamos no que queremos seja.

Sei que continuo à espera. Não sei é bem de quê.

Ou saberei?

neblinas ...
ggg
ggg
gggggggggggggggggggggg
gggggggg
ggggggggggggggggggggggg
g
vem.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

são tretas, senhor

É pá que treta! Só agora é que percebi a quantos estivemos todo o dia e nem engrupi unzinho que fosse. Bom, quero querer que aquelas contas manhosas que encontrei na caixa do correio devem ser duns senhores brincalhões lá das finanças e que aumentar os imi's foi a forma mais engraçada que eles arranjaram de animar o contribuinte.

É melhor não pagarmos porque lá para a semana que vem devem mandar uma carta a dizer que afinal era a brincadeira do 1 de Abril e que estamos todos isentos.

Parece que não, mas ainda há gajos que são verdadeiros profissionais da aldrabice. O pior é que a malta já não lhes acha graça nenhuma.

terça-feira, 31 de março de 2009

adolescência

Será que a adolescência é mesmo um mal necessário? Quer dizer, a dos outros, porque a nossa foi mesmo imprescíndivel. Não fosse ela e a nossa mãe teria ficado convencida para o resto da vida que eramos assim uns desenchaibidos duns pãezinhos sem sal e sempre na dúvida a quem afinal é que tinhamos saído. Com certeza não era a ela que sempre fora jovem de dar trabalho aos nossos avós. Tudo por amor, porque não fora isso e a vida deles teria sido uma rotina do caraças numa idade em que ainda tinham energia para esbracejar, gritar, teimar e, na teoria deles, em caso de necessidade até lhe dar um bom par de estalos. Quer dizer, não foi só por amor à mãe e pelo desenvolvimento da sua capacidade de argumentação que nos armámos em parvos e em xicos espertos ocupadíssimos em praticamente todas as noites de sextas, sábados e domingos e mais nas outras de segunda a sexta em que tínhamos um monte de compromissos inadiáveis com os nossos amigos ou com os amores das nossas vidas. Também foi por amor ao pai. E como forma de estímulo ao diálogo entre eles os dois. Assim sempre tinham motivo de conversa e, palavra puxa palavra lá se entusiasmavam, enrolavam-se um no outro e nem davam conta da nossa hora de chegada. Isto não se chama dar a volta, chama-se amor ao próximo, que é uma cena muito à frente, para quem, como dizem os pais só vê o seu próprio umbigo e mais o corpo todo da paixão de cada dia.

- Dá para de vez em quando vocês fingirem que já são gente grande?

segunda-feira, 30 de março de 2009

ventanias

O vento sopra de Norte e o papagaio voa pra Sul.
Às vezes sobe tão alto que brinca com as nuvens e assusta a passarada.
Lá de cima ele vê o tudo muito bonitinho.
Lhe parece nem há tristezas, nem desgraças, nem diferenças.
E voa, voa, ao sabor da ventania.
Ao acender do farol de São Julião o papagaio desce,
contrariado por voltar ao mundo de verdade.
Sacudi-me de quilos de areia e de ilusões.
Também eu quero voar.
Novas nortadas virão.

domingo, 29 de março de 2009

bom proveito !

Depois de uma noite pouco dormida por sanguessuguice a um livro até ás tantas e imperioso despertar madrugador, nada mais evidente que resmungos e molenguice. Nem sempre o café faz milagres mas que ajuda ajuda. E sumo de laranja de verdade também. Parei no Pingo Doce de Linda-a-Velha para o tratamento. Praticamente a dormir em pé e à beira de uma crise de mau feitio se o efeito não fosse imediato. O pessoal, apesar das senhas numeradas de vez, sempre se amontoa e acotovela na esperança de primeiro serem atendidos. Fui na onda. De repente acordei com o pedido do casal vizinho.


- Quero um galão claro com descafeinado e adoçante e um pão de padeira branquinho mal cozido com mais manteiga do que é costume, queijo e fiambre a dobrar, metade para embrulhar e o meu marido vai beber um café cheio em chávena escaldada com dois pingos de leite, um pastel de nata morninho, dos tostados e com pouca canela. Aqui tem dois euros. Se quiser tome lá cinquenta cêntimos e dá-me um euro de troco para lhe facilitar o raciocínio.

E dois copos de água se faz favor. Mas passe-os primeiro à torneira pra não estarem quentes que dão mau gosto à água e como é pra tomar comprimidos...

sexta-feira, 27 de março de 2009

estamos a quantos?



Nunca sei bem que dia é do mês e às vezes até dos dias da semana desconfio. Oriento-me pelos horários das escolas e dos treinos e sábados e domingos é consoante os escalões a jogar e as idas aos escuteiros. Nem tão pouco às datas festivas o meu calendário se verga. Vai lembrando que o Carnaval é à terça - acho ainda é -, a Páscoa ao domingo e lá para Junho os feriados se encarrapitam uns nos outros que dá até para fingir umas férias.

Depois ainda há o dia do pai, da mãe, da criança, da mulher, dos avós e se calhar já inventaram do homem, do padastro, da madastra e do resto dos parentescos e características mais óbvias, tipo dia dos coxos de meia idade ou das balzaquianas grisalhas.

Mas hoje decidi festejar o dia. Vou vestir aquele fato de subir na vida que a D. Alice costurou com o pano di terra que o Xando me trouxe da Ilha de Santiago, calçaria até uns sapatos de salto daqueles em que até a minha perna roliça pareceria torneada, se de tal fosse capaz e estarei presente na cerimónia oficial do dia da mulher cabo-verdiana, organizada pela Embaixada de Cabo Verde em Lisboa e presidida pelo primeiro-Ministro Dr José Maria das Neves, com o objectivo de homenagear as mulheres duma terra que também sinto minha.

terça-feira, 24 de março de 2009

Diz-se o quê?

Tem épocas que as emoções são tão díspares que baralham a cabeça à própria. Fica sem perceber se deve parar de pensar e meter férias, tipo graciosas sem fim à vista ou se deve acelarar o raciocínio e tentar encontrar respostas, formas de luta e gente de sangue na guelra. Tiros no escuro. Muros no ar. Gritos surdos Uma treta é o que é.

Deixei-a à porta de casa às 11 da noite. Vai acordar às 4 da manhã, caminhar durante quarenta minutos até à estação mais próxima, apanhar o comboio das cinco e vinte para pegar ao serviço às seis e largar às oito e voltar a pegar noutro lugar à mesma hora e largar seis horas depois. Sente-se feliz porque a mãe entra à mesma hora e só sai às oito da noite. Tem 17 anos feitos ontem e a mãe está a caminho dos 36. As duas juntas recebem de salário quase oitocentos euros, pagam trezentos e cinquenta de renda, mais cento e vinte dos passes e outro tanto para a creche das gémeas. Lá em casa não há luz desde há muito tempo mas também não faz assim muita falta porque também não há televisão nem comida de sobra para guardar no figorífico.

quinta-feira, 19 de março de 2009

quantas horas teve o dia?

Há dias do caraças! Ontem.

O pobre do Manel amanheceu com uma daquelas tosses malucas que o deixam de olhos arregalados de susto, a querer falar e só sair aquele ronco de cão acoçado por botas cardadas. Um dia mais de meio para cirandar entre a sala de espera, o consultório, a salinha dos aerossois e o bar. Horas e horas de mimos, descanso e leitura. E mais pensar e falar baixinho e pôr conversas em dia.

Reunião de pais na escola por questões de comportamento e derivados. Faltas de educação e de concentração, excesso de alunos em sala de aula e consequente insucesso escolar. Mães e pais , direcção de turma e comissão executiva preocupados com o andar da carruagem e empenhados em pôr em prática planos e estratégias adequadas à resolução da situação.

Bimby. À partida, estas coisas das vendas ao domicílio com demonstração anexada não são o meu deleite, nem pouco mais ao menos. Mais ainda, desconfio de máquinas com muitos botões, ruídos estranhos e paredes opacas que escondem tudo o que lá se passa dentro e tenho sempre algum receio que percebam a minha desconfiança e, ao primeiro descuído me preguem um choque de pôr tudo quanto é pêlo em pé. A vendedora, demonstradora, cozinheira Joana era uma querida, poupou-me imensa trabalheira, deixou um jantar completo na mesa, com limonada, sobremesa e mais aqueles abraços e troca de galhardetes com o Marcelo, agora pai, marido e motorista ao serviço da família. Man, até o Marcelo se fez um homem!!!

De caminho e no meio das pressas ainda consegui dar um trambolhão tipo peixe atum a se esborrachar na calçada. Branqueei de vez e vi o mundo inteirinho de pernas pró ar, prós lados e também pra baixo porque ele rodava em todas as direcções sem querer parar para me deixar limpar os joelhos, estancar o sangue da testa, apanhar os óculos e seguir viagem, ao volante da carrinha, a caminho dos treinos. Elas assustaram-se e eu fingi que não mas tremia que nem tivesse entrado num dos congeladores da Docapesca.

Desculpa da Bimby, coincidências, o nascimento da sobrinha do Nilton na véspera, a Primavera a chegar ou o que fosse. Estendeu-se a mesa até não dar mais, esticou-se a toalha bem esticadinha e coubemos os dez e mais pratos e copos e panelas com as estórias e disparates todos que estavam por contar.

Foram indo. Deixaram e levaram o calor dos sorrisos e dos abraços que partilhámos.

domingo, 15 de março de 2009

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tem dias, até horas em que podíamos ser, por aí, em paz. dar e receber.
trocar palavras se verdadeiras. gritadas, desenhadas no ar pelo vento sussurradas.
o sol pôs-se a meio da tarde.arrefeci.tens fósforos?
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sexta-feira, 13 de março de 2009

a solo

Ir à cidade não é coisa de todos os dias, é coisa de só às vezes e muito de vez em quando. Hoje amanheceu nesse quando, antes ainda dos carros pararem em fila desde onde o Tejo sentrega ao mar. Lá fui eu e mais a minha combalida furgoneta à procura de quem lhe desse saúde e a sede lhe matasse. Sereto se chama o curandeiro. Antes sereno, que áspero ele é de feitio e acho sem melhoras, porque os anos já lhe pesam e, salta à vista a boa saúde que os azeites lhe têm dado.

Voltei na corrente e velocidade contrárias à multidão, ao meu sabor, parando aqui e acoli, descobrindo a cidade grande e cruzando gente, tanta gente, nas ruas, nas praças, nas estações de metro. Todos apressados, de ar carregado e pouco feliz. Parece nem perceberam o quanto o sol brilhava e como já apetece esquecer os casacos em casa. Mendigos, alguns, arrumadores, bués, crianças, poucas, mas faziam diferença no cortar do ruidoso silêncio da carruagem. Próxima paragem Baixa-Chiado. Como é bom vaguear por aquelas calçadas pela manhã, parece ainda lavadas e frescas do orvalho da noite, sentir cheiros de Primavera, esplanadar por lá, bebendo café, criando estórias, colorindo personagens e cantarolando bandas sonoras a condizer com o sobe e desce da vida que desperta.

Àquela hora parece a cidade rejuvenescia. Acho até esfreguei os olhos e me espreguicei para reacordar. Bruavam conversas e risos, pregões de pexisbeque e paxeminas, lotes de turistas por edioma a caminho do Carmo e piropos atirados do cimo do andaime às passantes mais ousadas. Na escadaria da igreja uma jovem afinava o violoncelo trinando lá's, um casal de adolescentes perdia-se de paixão na esquina da Bertrand e já não sei se o eléctrico passou ou se foi só ilusão.

Desci a Rua do Alecrim, comprei uma flor e entrei no comboio.

quarta-feira, 11 de março de 2009

ressonância magnética

Cada vez que uma das miúdas do andebol estraga um joelho lá vamos nós a caminho de Caselas prá ressonância magnética. E de todas as vezes me lembro da mesma estória. Estória antiga de saloios acabadinhos de chegar da província. Eu ainda sou do tempo em que só existiam universidades nas cidades grandes e a malta, aos 17 anos alugava um quarto e mudava-se de armas e bagagens, sem carro, sem telemóvel, sem computador e com mesada apertada e muito mais sonhos que anos de vida.

As donas dos quartos não gostavam de visitas e os cafés, como o Ribamar de Algés ou os jardins eram as melhores alternativas para estudo, namoro e convívio da estudantada. Foi nessas andanças que descobrimos um pinhal simpático junto a uma alameda com bancos corridos, igreja de pedra lá ao fundo, padaria com bolos quentes e baratos e paragem de autocarro directo do Marquês.

Passámos palavra uns aos outros e volta não volta lá iamos até Ressonância Magnética, estudar e fazer trabalhos, às vezes piquenicar, guitarrar e cantar, até jogar à bola ou simplesmente ficar na treta uns com os outros. Certo dia, numa aula de Semiologia da Comunicação, daquelas de anfiteatro que pareciam nunca mais terminar, o professor apresentou um exemplo ilustrativo de nem interessa o quê mas que explicava o que era uma ressonância magnética. Os que lá estávamos olhámos uns prós outros entre risos e cochichos. Acabaramos de descobrir que afinal não era assim que se chamava aquela terrinha simpática entalada entre a Mata de Monsanto e a auto-estrada de Cascais.


Mas é o que continua escrito na seta de sinalização que aponta para lá...

terça-feira, 10 de março de 2009

pé a pé

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acordar. sair. partir. ir. apressar. fingir.
sorrir. cumprir. cegar. ver. ouvir. gritar. partir. parar. pedir. chorar. sorrir. deixar-se amar.


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segunda-feira, 9 de março de 2009

por ler

Não gostar de ler é doença contagiosa, espécie de varicela de gente grande que pelo convívio infecta a miudagem, toma carácter crónico e corre sério risco de se tornar hereditária.

Conheço um rol de adultos com estatuto e bem na vida, respeitáveis homens e mulheres da classe financeira e até política que passaram os olhos pelos "Maias" e amargaram com "As viagens da minha terra" porque a tal foram obrigados. Em cada Verão passeiam os Paulos Coelho e as Margaridas Rebelo Pinto da moda conforme aderem às havaianas ou às madeixas platinadas. Mas tal como as roupas passam de época sem marcas de uso também os livros são arrumados na estante ainda por desflorar. ou folhear, tanto faz.

Tem nada a ver mas o meu Jorginho também não gosta de ler. Diz que gostava de gostar mas as letras fogem dele como se tivessem medo. Ele acha que as letras, as palavras e até as vírgulas já descobriram que ele não é flor que se cheire e não querem confianças com malvadezas e máscriações. Antes, quando tinha óculos de ver parece até os pontos de exclamação gostavam dele e nem ia tantas vezes de castigo nem para o atendimento, não fugia da escola nem dava mergulhos de pés nas poças da chuva. Quando voltava para casa, lia os horários das paragens de autocarro, a ementa do Café do Gaveto, a "Dica" da semana e os cartazes todos dos concertos do Tó Semedo, do Juka e até de gajos estrangeiros que tem que se pagar para lá ir abanar a carola. Depois os óculos partiram-se e estavam guardados na gaveta porque nas férias não se usam óculos de ver porque não fazem falta nenhuma e as miúdas nem gostam de putos caixa de óculos.

Na semana passada, a sogra da madrasta da mãe do Jorginho deu-lhe uns óculos que já não lhe serviam mas que a ele ainda estão de crescer. Já foram a apertar ao oculista mas continuam com um problema. Estão impecáveis, como novos, têm os vidros inteirinhos e transparentes tal e qual quando as janelas lá de casa acabam de ser limpas com "Ajax", mas as letras continuam a fugir para todos os lados e às vezes parece até ficam nubladas como se as lentes tivessem embaciado.

Numa tarde destas, lado a lado, porque aos 12 anos já não se tem idade para andar de mão dada, passeámos por aí e pedimos aos amigos e conhecidos com óculos que nos deixassem experimentar os seus gafarros para ver se nos assentavam bem. Uns ficavam, outros nem por isso mas o bom da coisa foi o Jorginho ter descoberto por si próprio que as letras não têm nada contra ele, os vidros dos óculos é que mesmo limpinhos e brilhantes não são iguais uns aos outros. Truques!!!

sexta-feira, 6 de março de 2009

até amanhã

Sabes aqueles fios que seguram o pescoço? Doem bué. Acho os pés não aqueciam nem Agosto chegasse . As mãos esfregam-se e apertam-se qual jogo de paixão e os pés vão calcando a calçada, sem ritmo nem destino. Fôra um grão de areia e voaria por aí, de duna em duna, chegando e partindo ao sabor da brisa, livre, sem raízes nem prisões. O sossego da noite, o aconchego da botija de água quente e palavras e sonhos murmurados ao acaso trazem amanhãs melhores, eu sei. Mas o melhor de tudo foram aqueles abraços, tão de fugida mas tão lá do fundo. Amizade sabi.

quarta-feira, 4 de março de 2009

quando fôr grande quero ser tudo!



hoje queria muito que o dia tivesse sido menos pesado, mais colorido e sem tanto aperto no coração. nem são pedro ajudou. temperou desgosto e tristeza com granizo e vento forte. se calhar não é bem santo, está ainda em formação, como a personalidade dos miúdos e aquelas leis que lhes definem os destinos, às vezes tarde de mais.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As primas Marias

Tem dias assim. nostalgia pura.

Adormeço e acordo ao som daquele mar forte de sul que entra pelo molhe da Solaria, põe as gaivotas loucas, os pescadores em terra e me deixa de alma lavada;

Por caminhos e carreiros, entre urze, estevas e giestas, lá fomos, de prima em prima, revivendo velhas estórias, cheiros, caras e sabores. Todas nos setenta, todas viúvas, todas sós e cheias de vida em ermos perdidos na serra algarvia. Sob a nevrinha colhemos laranjas, poejos e rosmaninho. Ao calor da braseira falaram da grandeza dos martuzes com mel no combate à tosse, da água que se deve beber morna para evitar males na veia d´urina, dos filhos, dos netos e dos bisnetos que as visitam mas que não desejam nas lidas da terra nem dos cortiços, querem-nos lá em baixo, no Algarve, onde há hoteis, turistas, trabalho limpo , não se acorda ao nascer do sol nem se recolhe ao piar do mocho.

São tão bonitas as primas. Morenas e enrugadas por décadas de sol, despachadas e trabalhadeiras, cabelos alvos cobertos por lenço negro e chapéu de palha debruado a fita escura, de olhos muito brilhantes e sorriso aberto. Sábias e adivinhadoras de sonhos. Abraçam com fervor e cantam com doçura.

Encantam-me sempre. Comovem-me também.

Isabel volta depressa. vamos até lá cima,aos Gregórios, que a prima Maria José sabe dum chá de alecrim que afoga até as tristezas desenganadas.

quem ???

Mais ou menos a partir dos 25, 26 anos, às vezes mais uns quantos, quase deixam de nos perguntar a idade. melhor assim, faz conta não se vê bem o tempo a correr e toca de lhe fugir atrás não vá ele ir longe de mais. com o passar dos anos e o crescer da família somos assim mais ou menos agregados ao alguém que dá mais jeito nesta ou naquela situação.

Começamos por ser o marido ou a mulher de, que digo eu por minha conta, ao fim de vinte e tal anos de comunhão continua a soar-me estranho. nas escolas e nos consultórios passam a tratar-nos por "mãe" ou "pai" como se fizessem parte do agregado e para todos os miúdos e adolescentes da escola, do clube, dos escuteiros, da rua e mais aqueles que nem sabemos donde nem quem são seremos eternamente a mãe ou o pai do ou da consoante o género.

Daí a minha estranheza a tanta questão acerca da minha pessoa em menos de vinte e quatro horas. perguntaram nome, morada, telefone, profissão, data e local de nascimento e idade também não fosse ter aldrabado e tirado uns poucos de anos, estado cívil, nome do cônjuge - que eles sempre dizem cônjugue - e se era pai dos filhos e se estes eram maiores, menores e não perguntaram o sexo nem a cor dos olhos e do cabelo, o peso, a altura e o nível de colesterol porque não se devem ter lembrado. Curioso é que em nenhuma altura me foram solicitados os documentos do veículo, comprovativo em como eu era a proprietária ou a minha própria carta de condução. Eu acho que não é crime ter apresentado queixa dos presumíveis vândalos que me assaltaram o carro. ou será que é?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

cinzento escuro

afinal a minha cidade já não é aquele lugar aprazível e pacato que sempre espero encontrar no inverno. ao sol posto as ruas ficam desertas, silenciosas e tristes como se esperassem a morte. entre postigos e portadas já só espreitam avós, assim meio a medo, na penumbra da viuvez que deixou de ser alheia. e eu que me sentia segura. aqui. em qualquer canto e em qualquer duna. em lagos. na minha cidade. enraiveci de espanto. de surpresa. acho que de desilusão até. desembaciei. depois do assalto de hoje fugi pró mar e contei-lhe das muitas pedras que faltam nas calçadas do nosso burgo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

à noitinha no casino

Que cena! Eu não sabia, mas os casinos são mesmo como nos filmes, assim tipo entras na cena e já lá estás, parece nem és bem de verdade que és praticamente assim uma espécie de sombra ou de olho atrás da câmara que anda por ali a topar a coisa como quem não quer nada. E os mânfios e as mânfias com ar muito esgazeado e olhos completamente vidrados em rectângulos pejados de desenhos coloridos mais ou menos repetidos, devorando cigarros e mais cigarros, amontoando beatas em cinzeiros laterais género aquelas sarjetas gradeadas com ratazanas à espreita.
Que cena! Seres femininos de ar angelical mas certamente aparentados de demónio circulam, deslizando sorrisos e bandejas repletas de copos meio vazios ou meio cheios de ouro ou talvez urina made in Scotland. As luzes refletem no chão o tecto de estrelas e ilusões que faz acreditar na impossível probabilidade de ter chegado o tal dia, na tal máquina, àquela hora, com a mão esquerda fechada em figa, a boca entreaberta em reza e um minuto e meio sem respirar. Afinal inspirou cedo ou tarde demais, a mão não estava suficientemente apertada contra o polegar, a reza não era bem aquela, o dia era de ano bissexto e o relógio devia ter a pilha fraca. Azares. Novos dias virão. Antes não.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

sempre a rolar


Às sextas, depois das aulas acabarem, o Luís e o Mariano inventaram o Clube das Engenhocas da Escola de São Bruno. A rapaziado foi-se chegando e, pouco a pouco, foram dando à luz uns poucos de carrinhos de rolamentos, mesmo daqueles em que todos nós já descemos as rampas do nosso bairro, esborrachámos dedos e rasgámos as calças que a nossa mãe nos tinha dito para não vestir porque eram quase novas e podia haver um acidente, daqueles que acontecem mesmo sem querer.

Dois domingos atrás fomos experimentar os carrinhos rampa abaixo, no lugar onde iria acontecer o Grande Prémio Esferacar de Barcarena, assim tipo aprender a andar e treinos de reconhecimento de pista. Encantaram com uma manhã inteira de desce a rolar sobe a puxar, come bolacha, trinca maçã, piropo pra cá, estória pra lá. Nem o frio nem a humidade nem tão pouco o acordar assim quase de madrugada em dia de dormir até meio-dia, demoveram estes aprendizes de campeões.

Neste sábado, pilotos de Caxias e da Outurela, partilhando viaturas, capacetes, luvas, lanches, ajudas e amigos, fizeram-se ao alcatrão. O Adilson soprou-me no ouvido que tinha o sonho de ter um carrinho daqueles, assim só dele para brincar quando tivesse vontade. Parece o vento ouviu, contou à brisa e ela bisbilhotou a gente amiga. Quando os deixei na Outurela, junto ao Clube Jovem, o Adilson subiu a rua, inchado de orgulho, puxando a viatura pela cordinha e prometendo à passagem que ia deixar todos andarem, só em ruas sem carros a circular nem estacionados, porque era esse o acordo que tinhamos estabelecido.
Foi tããão fixe!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Peripateticando

O sol voltou e eu, a bem dizer, renovei.

Não há janelas abertas nem passarinhos a cantar nos beirais que nos alegrem quando lá ao fundo a serra espreita, assim como que a piscar o olho espicaçando-nos para umas corridas com vista pró mar do Guincho.

Esta tarde fomos brincar aos peripatéticos. Peri quê? Andar por aí, caminhando, à conversa e ir aprendendo uns com os outros. Agora sim, toda a gente percebeu o que é uma raiz fasciculada tuberculosa, um caulo cilíndrico com medula, a diferença entre simetria e assimetria, entre estame e carpelo e até quando começou e acabou a primeira república. Aproveitámos e enquanto subíamos direitos à Peninha fomos treinando multiplicações com muitos e poucos zeros antes, depois e até sem vírgulas.

Sentimos o frio muito frio que o vento trazia empoleirados numas pedras gigantes que apostámos serem meteoritos caídos do céu, ouvimos o barulho do silêncio e o resmalhar das folhas, respirámos devagarinho e com muita atenção para treinar o portar bem na sala de aula, brindámos às negativas a descer e às positivas a subir com copos muito pequeninos a derramar de icetea, corremos descida abaixo e de calhau em calhau, descobrimos bué de verdes diferentes uns dos outros e colhemos uns ramos cheios de bolinhas amarelas para trazer para as mães. Descobrimos depois que as flores de acácia além de lindas também são muito malcheirosas ...

Na volta passámos no Guincho e despedimo-nos do sol, muito cor-de-laranja quase vermelho a afundar-se no mar lá tão ao fundo que já devia ser horizonte. Assim muito rápido. Estava ali e pronto passamos o forte e já não estava, parece já devia estar a acordar na China com despertadores a tocar e miúdos a irem para a escola para aprenderem a história de lá, língua chinesa e ciências e matemática que devem ser iguais mais ou menos em todo o lado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

devaneios

apetece-me um dia inteiro sem chover. já nem peço setembro em fevereiro nem primavera no entrudo. era só mesmo assim um dia inteirinho sem chuva. até podia fazer frio, que o sol brilhando sempre aquecia um poucochinho. podia até roubar-me um meio dia acrescentado e descer para espreitar mar a sério. com cheiro e alma. aproveitava e do outro meio dia já ratado fazia aquelas horinhas de formação prometidas para sines que é logo ali à banda de cima de s. torpes, seguindo a estrada à babuja da areia desde a entrada da barca. ou ao contrário. e depois, como era de caminho até parecia vinha a calhar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

do Lat. futuru, que há de ser

transgredir
do Lat. transgredere por transgredi
ir além do que é permitido;

infringir;
postergar;
deixar de cumprir lei, preceito, dever ou ordem.

amar
do Lat. amarev. tr.,
ter amor a;
gostar muito de;
desejar;
escolher;
apreciar;
preferir;

viver

do Lat. vita
ter vida;
existir;
durar;
habitar, residir;
alimentar-se;
nutrir-se;
comportar-se;
ter relação com;

felicidade

do Lat. felicitates. f.,
ventura;
bem-estar;
contentamento;
bom resultado,
bom êxito;
qualidade ou estado de quem é feliz.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

chegou carta, mucua também

Nha Nézinha gostava de sentar junto do povo jovem e de contar parte. Parte lá da terra do lá longe, parte de bandido fugido de bófia e caçado por mais bandido que a si, parte de quando Zé Mindelo a tinha ido pedir ao pai e com o nervo bebeu grogue demais e chorou de grosso e muita parte com filhinhos pequenos presos à saia e à chupa de mamã.

Gostava de agradar Fatuxa, filha codé, única em casa cuidando. Embarrigara de Fatuxa já mulher partida pra velha e tivera choro grande de desgosto. Vergonha de mulher parida avó de netos homens feitos.

Nasceu de olho aberto e goela escancarada a cachopa. Havera de ser mulher pra vida dissera doutora que a trouxe pro mundo. E era. Professora diplomada, dessas de ensinar a ler e a escrever criança pequena e grandes também.

Até mamã já assinava o nome e lia cartas chegadas do lá longe. Mas o estado nunca mais mandava postal dizendo que tinha escola pra ela ensinar meninos. Então ela ia no shopping e ganhava arrumando tabuleiro de comida. Depois voltava e nha Nézinha lá estava, sentada, contando parte. Fatuxa ia só num instante comer bucha e trazer viola. Encostava na perna da mãe e tocava as mornas mais choradas do bairro.

Um dia, nha Nézinha não acordou mais. Fatuxa fez a trouxa, pegou na viola e foi pro lá longe. Era quase Fevereiro. Lá no Namibe ela foi ensinar. E contar bué parte também.

Continuo a escutá-la nos meus sonhos. Soletrando ditongos, tecendo longos panos coloridos, trauteando aquelas suas músicas sem palavras de verdade e que falam a verdade toda. Fatuxa não voltou porque o caminho do ser feliz nela se encantou e sua lhe chamou.

Passaram dois anos, mais dia menos dia.

sábado, 31 de janeiro de 2009

tem dias ...



o mar enfureceu. o céu também.
fosse a minha loucura maior iria tempestade dentro, deixando-me salgar, molhar, oscilando ao sabor da nortada.

sei teria voltado mais leve e de alma renovada.

constipada, porém.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Elas

De vez em quando roubo uns minutos à cama e passo mais do que a horinha do costume no ginásio. Dou-me a pequenos luxos como fazer uma aula de hidroginástica ou de pilatos, passar de novo pela minha máquina preferida e no final esparramar-me no belo do banho turco e deixar-me ir atrás dos vapores. Pra lá da porta embaciada está um mundo de mulheres preocupado com cremes, tintas para o cabelo, vernizes, leggins, tops, cabeleireiros, esteticistas, manicuras, quilos a mais e mamas a menos. Entressonhos vou ouvindo o que desconfio seja sofrimento feminino. O cabelo que não estica como devia, o difusor do secador que empenou, o contorno de olhos que partiu o bico, a unha de gel que descolou antes do esperado e mais a pasmaceira que é passar o dia entre massagens que já não resultam e o escritório onde as colegas são todas umas cabras invejosas. Sinto-me assim como que ave rara e fico sem saber se devo ou não sair de dentro da densa nuvem de água em puro estado gasoso.

É que elas podem perceber que o meu cabelo é cortado à máquina, pente quatro fachavor e ver nas minhas unhas os carrinhos de rolamentos que hei-de aprender a construir.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Om mani pemé hung hri

Ao passar por uma sanzala amiga (sanzalando.blogspot.com) despertei uma mão cheia de coisas boas, que, pela pressa da vida, têm estado engavetadas, uma saudade de mãos quentes e abraços de paz, sorridentes, ao ritmo de brisas mansas e melodias suaves.

Acabada de chegar à cidade grande e desconhecida, procurando instalar-me e adaptar-me à nova vida de estudante universitária em auto gestão, senti-me em casa naquela casa que logo vi não ser bem um restaurante, apesar de se comer bem e adequado à fraca bolsa da época.

Serviam-nos a "malga da simplicidade" que consistia em sopa, tarte de vegetais com salada e uma tigela de frutas frescas e secas com iogurte, temperada com a maior simpatia e uma calma que só ali se respirava. Chamavam-lhe o "Terraço do Finisterra" e era um segundo andar da Rua do Salitre com vista para o Jardim Botânico da Faculdade de Ciências.

Quando quase no final do curso soube que ia ser mãe prepararam-me água ferrosa e os pratos mais completos e coloridos, para que ambos crescessemos em vida e saúde, ensinaram-me a melhor posição para dormirmos em paz e fizemos ioga diariamente. Quando o Lopo nasceu, apareceram na maternidade com uma maravilhosa e imensa tarte de chocolate e castanhas para a equipa de serviço. Festejavam o regresso do Lopo.

Como verdadeira comunidade que são, a sua vida é onde fazem falta. Partiram e estão em França, na Bélgica, nalgum mosteiro algures por aí, trabalhando para que numa vida próxima sejam ainda melhores pessoas. Deixaram-me valores eternos e um coração maior.

Hoje, depois de passar pela sanzala, desenrolei o rolinho que recebi na última passagem do Dalai Lama por Lisboa. Continuava por abrir. Estava escrito "Om mani pemé hung hri"/"Aconteça o que acontecer à tua volta, nunca desistas".

O restaurante ainda existe.
Chama-se "Tibetanos" (www.tibetanos.com). Fica à mesma no 117 da rua do salitre, agora mais sofisticado mas igualmente acolhedor.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Senhor Ribeiro da Biblioteca

Dias, semanas, meses a fio esperei o Senhor Ribeiro a partir das cinco e meio, sentada nas escadas de madeira do prédio que, naquele tempo era o do turismo, da biblioteca e, acho que também de qualquer coisa de saúde pública, tipo agente sanitário, ali mesmo em frente às laranjeiras do Abrigo e a seguir à Palinova. Todos os dias utéis requisitava os três livros possiveis e lia-os de rajada, como se cada um fosse o último, de olho arregalado e caminho directo aos sonhos.

Com o passar do tempo as visitas deixaram de ser diárias porque o deleite da leitura assim o obrigava mas, dizia o Sr Ribeiro, continuava a ser a sua melhor freguesa e quem quase como ele conhecia de cor e salteado cada uma das prateleiras. Acho ainda posso pegar num lápis e num papel e arquitectar cada assunto e muitos autores, estante a estante, daquele primeiro andar de parapeitos floridos.

E o bom que era contar e ouvir do Senhor Ribeiro um mundo inteiro de fantasia roubado às muitas páginas folheadas ou acabado de sair da nossa imaginação, enquanto eu copiava parágrafos mais especiais e ele tratava da saúde a lombadas defeitas ou ajudava na consulta de alguma obra.

Na entrada, ao lado da porta verde, havia uma placa dourada onde estava escrito: Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Fixa nº 6, de segunda a sexta, das 18h às 20h. Num domingo de 1974 , ao lusco fusco, fomos lá, à sucapa e colámos um cartaz a dizer "Biblioteca do Senhor Ribeiro" numa atitude PREC'iana de entregar terra a quem a trabalha.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Nha Jula

Numa das muitas vezes que fui ao aeroporto esperar alguém os nossos olhares cruzaram-se, meio sorridentes meio cumplices, como se já noutras paragens se tivessem encontrado. O voo atrasou como quase sempre atrasam os que de lá vêm e entre idas e vindas os nossos olhos brilhavam de uma para a outra.

Quando já escutava as aventuras e desventuras dum amigo em terra distante, li-lhe medo de relance, na mão enrugada que me acenava despedida. Estendi-lhe a minha, abrimos os braços e apertámo-nos como avó e neta a quem a saudade aperta. Só então percebemos, ela incluida, que Nha Jula estava há várias horas no átrio do aeroporto da Portela, aguardando uma filha que ignorava a sua vinda, porque, na ânsia do partir se esquecera de a avisar.

Nha Jula tem a sapiência de quem já viveu 87 anos, apresenta porte altivo nas suas sete saias engomadas e cabeça coberta pelo tradicional lenço branco, um par de olhos azuis a se cobrirem de névoa e uma inocência bonita de menina travessa que praticamente voa em cadeira de rodas. Ela sabia que a filha se chamava Amélia e que morava em Lisboa, numa casa amarela de onde se via o mar longe, longe, quase até Cabo Verde. Recordava-nos a todo o instante que a sua maleta não tinha nome porque não o sabia escrever mas estava marcada pelo cinto xadrezado da sua segunda saia de baixo.

De balcão em balcão, de corredor em corredor, telefonando, perguntando, melgando uns e outros, cá e lá, Nha Jula cumpriu o desejado: seis meses de belas férias com a família espalhada por todo o Portugal, Feira do Relógio, Colombo e Fátima incluidos.

Um dia destes ela vai voltar e trazer de novo a maleta cheia de garrafas de manteiga(!), feijão congo, atum, milho, linguiça e bolacha capitão. Vamos a ver é se não se esquece de avisar a malta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Ao sabor do Arade

Parece não pisava Portimão desde os tempos do liceu, da Ginga e das idas ao mercado nas madrugadas de sábado. Depois foram só fugidas aos hipermercados e idas ao hospital todas as muitas vezes que não queria terem existido.
Chegar de comboio e passear-me lentamente junto ao rio foi agradável novidade. Embalar-me para enfrentar o "parto" difícil que estava pra vir. Ainda não foi desta que "nasceu".
De despedida vou cobrar-me um fumegante chá na esplanada da Casa Inglesa, na esperança de que o último autocarro para a capital ainda esteja por partir.

Isabel, continuamos à tua espera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

às terças

A terça-feira é aquele dia cheio de começar muito cedo e acabar quando já é quase quarta. Hoje foi maior ainda. Foi dia de consulta da Mina no anjo da guarda dos joelhos das nossas meninas, o amigo Dr Pereira de Castro, que sempre nos recebe com a maior simpatia e o melhor humor, mesmo nas horas mais difíceis. Foi dia de treino das nossas "pequenotas" iniciadas na selecção. Já vão em 10. Foi dia de muito frio e granizo forte de deixar tudo branco e ficarmos todas encantadas, de boca escancarada a dizer "tão giro!".

Quando tudo acaba respiro fundo numa qualquer área de serviço, leio meia dúzia de páginas das revistas cor-de-rosa e as gordas dos jornais, bebo um café forte e amargo, sinto uma vontade imensa de acender aquele cigarro a que continuo a resistir e vou aterrando lentamente no ninho.

Tanta sede daqueles abraços que ainda estão por dar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Coisas boas

Esta noite, depois do jantar, passeámos a pé, aqui por perto de casa, conversando, chapinhando na beira das poças, sentindo os cheiros húmidos da terra e da relva recém cortada e espreitando as estrelas. Decidimos falar só de coisas boas. Daquelas que nos vão fazer sorrir e sonhar para sempre. Lembrei o cheiro a nívea e o calor do corpo dos meus pais quando na Praia dos Estudantes, voltava do mar e os encontrava estendidos no quente da areia, lembrei o parir de cada um deles três e a descoberta da maternidade no criar de cada um, lembraram as noites ao relento por esses montes fora em acampamentos de escuteiros, a alegria da entrada para a universidade do mano grande, o primeiro dia de escola, as férias de Verão na casa da avó Maria. Lembrámos os muitos abraços, beijos, cumplicidades, brincadeiras e gargalhadas que nos vão unir para sempre, em cada dia das nossas quatro vidas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

phoenix seja!


tenho ouvido dizer que quem morre de amor vai direitinho para o céu.
e o amor, quando morre vai para onde?
e renasce?

sábado, 17 de janeiro de 2009

segredos...

quando damos um segredo a guardar dizem ficamos mais leves, assim quase como quando voltamos das compras e alguém nos ajuda a carregar os sacos. às vezes eles trazem segredos para guardar. escritos em letra miudinha, num papel dobrado e redobrado até ficar só um rolinho que entupiria qualquer fechadura de portão de escola. guardamo-los sempre numa caixa de madeira escura trancada com dois cadeados cujas chaves são escondidas em lugares diferentes. e eu, onde guardo os meus segredos? será que fujo deles? acho é mais isso que fazem as pessoas grandes...

triste, não é?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

kota???

- A minha setôra de física foi ter bebé e veiu uma setôra nova.
- E que tal, é simpática?
- É assim mais ou menos. Fala baixinho e é assim, já um bocado velha.
- Velha?
- É. Acho que deve ter praí quase uns quarenta anos...
- O quê?!!!
- Quarenta ou trinta oito, assim mais ou menos.
- E isso é velha?
- É um bocado, não achas?
- Bruno, tás-me a dizer que eu sou velha?
- Tu não, ela é que é. Tu nem deves ter 33.
- Mais dez.
- Népes. Achas?
- Não acho, tenho a certeza. 1965, grande ano!
- Ah, mas é diferente. Ela é assim tipo avó nova e tu és tipo mana mais velha.

E mais, tu fazes anos no fim do ano. Aposto que ela faz logo em Janeiro...

 
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